Língua de sinais, cognição visuoespacial e educação bilíngue de surdos: contribuições da mente estendida e da neuroplasticidade intermodal

Autores

DOI:

https://doi.org/10.33871/22386084.2026.16.11642

Palavras-chave:

educação bilíngue de surdos, língua brasileira de sinais (libras), neuroplasticidade intermodal, mente estendida

Resumo

Este artigo examina a educação bilíngue de surdos a partir da articulação entre neurobiologia da linguagem, cognição incorporada, mente estendida e estudos surdos. O objetivo é discutir de que modo a experiência visuoespacial e o acesso precoce à língua de sinais sustentam o desenvolvimento linguístico, cognitivo e identitário de estudantes surdos, bem como as implicações dessa articulação para a organização da escola bilíngue. Trata-se de um ensaio teórico interdisciplinar, de base bibliográfica, orientado por leitura teórico-analítica não exaustiva de obras relevantes para a articulação entre neurociência da linguagem, filosofia da mente e educação de surdos. Esta análise se mobiliza para sustentar que a Libras não constitui recurso compensatório, mas língua plena, meio de significação e matriz de organização cognitiva. A literatura examinada indica que o processamento das línguas de sinais recruta redes linguísticas clássicas, com destaque para o Sulco Temporal Superior posterior e o Giro Frontal Inferior, ao mesmo tempo em que a espacialidade da sinalização externaliza relações gramaticais e apoia operações de memória de trabalho, referenciação e raciocínio. Argumenta-se, ainda, que o principal risco ao desenvolvimento da criança surda não decorre da surdez em si, mas da privação linguística produzida pelo atraso ou pela restrição no acesso a uma língua natural. Conclui-se que a garantia da Libras como língua de instrução e a organização de ecologias didáticas visuais constituem condições centrais para o enfrentamento da privação linguística e para o fortalecimento de políticas de educação bilíngue comprometidas com aprendizagem, subjetivação e reconhecimento.

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Biografia do Autor

Tiago Eurico de Lacerda, Secretaria de Estado de Educação do Paraná (SEEDPR)

Pós-doutor em Educação pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUC-PR). Doutor e Mestre em Filosofia pela mesma instituição. Bacharel em Filosofia pela Faculdade Vicentina (FAVI), licenciado em Filosofia pelo Centro Universitário Claretiano e em Letras: Português/Libras pelo Centro Universitário Cidade Verde (UniCV). Atualmente, é pós-graduando em Neuropsicopedagogia Clínica e Institucional pela Faculdade NeuroSaber e em Educação de Surdos e Ensino de Libras pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF). É professor do Quadro Próprio do Magistério, atuando na disciplina de Filosofia na Secretaria de Estado da Educação do Paraná (SEED-PR), com lotação no Instituto Londrinense de Educação de Surdos (ILES) e no Instituto de Educação Estadual de Londrina (IEEL). Possui certificado de proficiência como professor bilíngue em Língua Brasileira de Sinais Libras, nível 1 (2024), concedido pelo Centro de Apoio ao Surdo e aos Profissionais da Educação de Surdos do Paraná (CAS/PR).

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Publicado

2026-04-30

Como Citar

LACERDA, Tiago Eurico de. Língua de sinais, cognição visuoespacial e educação bilíngue de surdos: contribuições da mente estendida e da neuroplasticidade intermodal. Revista Educação e Linguagens, Campo Mourão, v. 16, p. 1–24, 2026. DOI: 10.33871/22386084.2026.16.11642. Disponível em: https://periodicos.unespar.edu.br/revistaeduclings/article/view/11642. Acesso em: 30 abr. 2026.