José Bento:
Esculpir no Antropoceno
DOI:
https://doi.org/10.33871/21750769.2026.22.1.10955Palavras-chave:
Escultura contemporânea, Arte e natureza, Estética ecológica, Response-abilityResumo
É apresentada uma análise crítica da produção escultórica do artista brasileiro José Bento à luz do conceito de Antropoceno e da noção de response-ability, proposta por Donna Haraway (2016). Inserido em um contexto de urgência climática e colapso ecológico, o trabalho de Bento mobiliza a madeira como matéria viva, carregada de memória, cicatriz e tempo. Ao reutilizar troncos caídos, móveis descartados e espécies florestais diversas, suas obras tensionam os limites entre natureza e cultura, revelando uma poética da escuta e do cuidado. A exposição Caminho de Guaré (2024), na Pinacoteca de São Paulo, exemplifica essa abordagem, com obras como Arco-Íris (2024) e Ar (2021), que evocam, respectivamente, a diversidade ameaçada e a fragilidade da vida em tempos de crise. A crítica não se dá de forma panfletária, mas na sutileza da matéria: o ar esculpido, o feijão fossilizado, a madeira que já não brota, mas insiste em permanecer. Ao invés de representar a crise, Bento a materializa silenciosamente, exigindo do público atenção e escuta. Sua prática se alinha a outras vozes da arte ecológica brasileira, como Frans Krajcberg e Bené Fonteles, propondo uma estética situada, que recusa soluções simplistas e aposta em formas de resistência sensível. Assim, sua obra convida a um outro tempo: mais lento, atento e comprometido com o que ainda pode ser cuidado.
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