A DANÇA E O TECIDO ACROBÁTICO: POSSIBILIDADES DE EXISTÊNCIAS E NOVAS VISIBILIDADES

Aline Teixeira Amado

Resumo


A partir da imbricação de duas linguagens artísticas, a dança e o tecido acrobático, próprio do universo circense, constrói-se um entendimento contemporâneo de corpo, revelando possibilidades sobre a experiência, visibilizando outros modos de olhar e fazer, sobretudo na prática pedagógica – ponto de partida da pesquisa. Elabora-se aqui uma compreensão de simultaneidade das relações que o corpo estabelece entre a dança e o tecido, que agem por contaminação, sem hierarquias nem homogeneizações, discorrendo sobre a condição de singularidade de cada corpo assim como sua complexidade nos modos de solucionar seu movimento. Com isso, a lógica de construção do corpo foge das generalizações deterministas, já que o corpo está em estado contínuo de atualização e provisoriedade. Convidam-se modos investigativos em dança para fazer parte do campo das correlações, para ampliar e potencializar acessos, entendimentos, conexões e possibilidades na relação tecido e corpo. Para isso dialoga-se com teóricas da dança, como Brito (2008), Bittencourt (2012), Schwab (2016) e Tridapalli (2011).

 

Palavras-chave: Dança. Tecido Acrobático. Modos Investigativos em Dança, Corpo.

 


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Referências


. “Esse modo de fazer dança expõe um corpo onde não há discurso de interpretação no sentido de simular algo a exemplo de uma história a ser contada, de uma história que não tenha sido vivenciada no corpo” (SHWAB, 2016, p. 26).

“O corpo que investiga é um corpo que age, movimenta-se a partir de um exercício interrogativo, duvidando de seus modos corriqueiros de operar e que experimenta um conjunto de outras possibilidades” (TRIPADALLI, 2011, p. 56).

O estado de questionamento do corpo é uma condição/experiência em que o corpo presta atenção no modo como ele opera, ou seja, no modo como o próprio corpo experimenta suas realidades sensório-motoras em diálogo com as possibilidades de relações estabelecidas com o ambiente. (TRIPADALLI, 2011, p. 65)

“a investigação constitui-se de um processo transitório entre diferentes ‘realidades’ intercomplementares: o aleatório e a regularidade, o instável e o estável, entre o código-estabilidade, sistematização e a probabilidade-incerteza” (TRIPADALLI, 2011, p. 56, grifo da autora).

É nessa experiência que o corpo se move em condições de possibili-dades. No exercício intuitivo e especulativo, o movimento permite a experiência do, embora sempre incompleto, entendimento de suas possibilidades e limites, ou seja, no entendimento de sua lógica, de funcionamento e das possíveis relações com o ambiente, enquanto produz dança. (TRIPADALLI, 2011, p.65)

Além da sua própria configuração, também aquilo que um corpo configura (uma dança, por exemplo) expressa sínteses circunstanciais da negociação adaptativa entre as restrições impostas por cada estrutura envolvida no seu processo interativo com o mundo. (BRITTO, 2008, p.29)

Na investigação em dança, o jogo entre perguntas e respostas se afasta do binômio ‘certo e errado’, verdadeiro ou falso, e cede lugar à relação de ‘mais coerente e menos coerente’. Na experiência investi-gativa, o corpo elabora suas soluções a partir de um exercício de coe-rências, ou seja, um exercício que emerge no processo de experimentação, quando o corpo desenvolve a lógica relacional entre as informações organizadas como soluções provisórias. Tal coerência refere-se ao modo e intensidade que a conexão entre essas informações ocorre. (TRIPADALLI, 2011, p.83, grifos da autora)

“a dança se constrói numa zona de transitividade e tem como objetivo efetuar conexões que possam mobilizar experiências, reorganizá-las e assim sustentar a produção de novos sentidos” (SHWAB, 2016, p.56).

Inteiramente diferente da noção de transferência de características, contida na ideia de influência, a ideia de contaminação contém um sentido não diretivo nem autoral, mas constante e inevitável: refere-se ao caráter residual da interatividade processada entre os múltiplos agentes. Um relacionamento gerador de efeitos não-planejados que se propagam ao longo do tempo. (BRITTO, 2008, p.30)

“[...] não há como referir-se a causas nítidas nem tampouco proporcionais, pois trata-se de fatores múltiplos atuando simultaneamente e regidos por uma hierarquia particular a cada situação” (BRITTO, 2008, p.51).

“[...] configuram processos contínuos e difusos” (BRITTO, 2008, p.52)

: “[...] não é possível prever qual regime de funcionamento será adotado pelo sistema, dentre os possíveis abertos pela perturbação sofrida, pois são as próprias flutuações que definem tal escolha” (BRITTO, 2008, p.48).

A vida de todo organismo é movimento. O corpo, como tudo que é vi-vo, se transforma pelo movimento. Enuncia em imagens seu caráter peculiar de existir em permanente fazer, ou seja, de estar sempre mu-dando. Assim, as imagens no corpo surgem como resultados provisó-rios em um determinado espaço-tempo. Dessa maneira, decorrem de procedimentos traduzidos em estados temporais sucessivos; um pro-cesso de transcurso irreversível, que se encontra implicado na própria sobrevivência do corpo. (BITENCOURT, 2012, p.52)

Referências

BITTENCOURT, Adriana. Imagens como acontecimentos: dispositivos do corpo, dispositivos da dança. Salvador: EDUFBA, 2012.

BRITTO, Fabiana Dultra. Corpo e ambiente: Co­determinações em processo. Sal-vador: FAUFBA; EDUFBA, 2008, p.11-16.

BRITTO, Fabiana Dultra. Temporalidade em dança: parâmetros para uma história contemporânea. Belo Horizonte: FID Editorial, 2008.

DESIDERIO, A. Corpos Suspensos – o tecido circense como possibilidade para a educação física escolar. Trabalho de Conclusão de Curso (Graduação). Faculdade de Educação Física, Universidade Estadual de Campinas, Campinas, 2003.

JESUS, E. et al. Proposta de avaliação física para praticantes de tecido acrobático. Revista Brasileira de Prescrição e Fisiologia do Exercício, São Paulo, v.6, n.31, p.65-69. jan/fev. 2012.

SANTOS, C. et al. A linguagem corporal circense: interfaces com a educação e a atividade física. São Paulo: Phorte Editora, 2012.

SCHWAB, Isabela. A experiência como discurso do corpo: a dança tecendo ca-minhos. Dissertação (Mestrado). Programa de Pós-Graduação em Dança (PPGDan-ça-UFBA), Salvador, 2016.

SUGAWARA, Carlos. Técnicas Circenses Aéreas: corda lisa e tecidos. São Paulo: Phorte Editora, 2014.

TRIDAPALLI, Gládis. Criação compartilhada na tessitura do trabalho ‘De maçãs e cigarros’. Dissertação (Mestrado). Programa de Pós-Graduação em Dança (PPGDança-UFBA), Salvador, 2011.

WALLON, Emmanuel. O circo no risco da arte. Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2009.


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