ENTRE RIMAS E MÉTRICAS: O CORDEL COMO RECURSO PARA PROMOVER A FLUÊNCIA LEITORA EM ESTUDANTES COM DISLEXIA
BETWEEN RHYMES AND METERS: CORDEL LITERATURE AS A RESOUCE TO PROMOTE READING FLUENCY IN STUDENTS WITH DYSLEXIA
Maria Eulina Fraga da Silva Mendes[1]![]()
Josaniel Vieira da Silva[2]![]()
RESUMO
Este artigo analisa o potencial da literatura de cordel como estratégia metodológica acessível para estudantes do 6º ano do ensino fundamental diagnosticados com dislexia. Considerando que a dislexia do desenvolvimento é um transtorno específico de aprendizagem de origem neurobiológica, frequentemente associado a obstáculos na fluência leitora e no desempenho escolar, o objetivo deste estudo foi discutir o uso do cordel como recurso de leitura assistida para o desenvolvimento da fluência leitora. A investigação adota abordagem qualitativa e descritiva, realizada em uma escola municipal do Recife (PE), centrando-se nas percepções de três professores de Língua Portuguesa que atuam com turmas compostas por estudantes diagnosticados com dislexia. Para a coleta dos dados, foram utilizados questionários semiestruturados, observação de sequência didática e análise documental. Os resultados indicam que elementos estruturais do cordel, como métrica regular, ritmo marcado e rimas previsíveis, favorecem o desenvolvimento da consciência fonológica. Tais características tornam o processo de leitura mais acessível e promovem maior confiança nos estudantes com dislexia durante a prática leitora, contribuindo para sua inclusão escolar.
Palavras-chave: Literatura de cordel. Dislexia. Fluência leitora.
ABSTRACT
This article analyzes the potential of cordel literature as an accessible methodological strategy for 6th-grade elementary school students diagnosed with dyslexia. Considering that developmental dyslexia is a specific learning disorder of neurobiological origin, frequently associated with obstacles in reading fluency and school performance, the objective of this study was to discuss the use of cordel as an assisted reading resource for the development of reading fluency. The investigation adopts a qualitative and descriptive approach, carried out in a municipal school in Recife (PE), focusing on the perceptions of three Portuguese Language teachers who work with classes composed of students diagnosed with dyslexia. For data collection, semi-structured questionnaires, observation of didactic sequences, and document analysis were used. The results indicate that structural elements of cordel, such as regular meter, marked rhythm, and predictable rhymes, favor the development of phonological awareness. These characteristics make the reading process more accessible and promote greater confidence in students with dyslexia during reading practice, contributing to their school inclusion.
Keywords: Cordel literature. Dyslexia. Reading fluency
Editores do
dossiê: Profa. Dra. Ana Maria de Barros (UNESPAR), Profa. Dra. Elisa Tomoe
Moriya Schlünzen (UNESP) e Prof. Dr. Edison Trombeta de Oliveira (CPS - Centro
Paula Souza)
INTRODUÇÃO
Ingressar em uma sala de aula do 6º ano do ensino fundamental implica presenciar uma multiplicidade de mudanças. Para estudantes com dislexia, esse momento revela-se ainda mais exigente, pois os livros ganham novo peso, e a exigência de leitura fluente torna-se um obstáculo concreto, muitas vezes abafando o prazer da leitura antes mesmo que ele possa se manifestar espontaneamente.
É fundamental compreender que a dislexia é mais do que um transtorno neurobiológico que dificulta a associação entre letras e som. Frequentemente, ela impõe barreiras silenciosas que afastam o estudante do universo da leitura. De acordo com a Associação Brasileira de Dislexia (ABD), a dificuldade em decodificar textos exige não apenas um olhar diagnóstico, mas também o compromisso ético de buscar estratégias sensíveis que devolvam a essas crianças a confiança para lerem sem medo.
Nesse contexto, o cordel surge como alternativa promissora para o letramento literário, a fluência leitora e a compreensão textual de estudantes com dislexia. Em Recife, onde o cordel faz parte da identidade cultural, esse gênero transcende o formato de folheto, apresentando-se como recurso literário ancorado no ritmo e na musicalidade. Isto porque o texto rimado do cordel oferece um alívio visual e um guia sonoro. Suas rimas funcionam como ecos familiares, antecipando sons e permitindo ao leitor prever palavras, tornando a leitura uma experiência mais fluida e acolhedora.
Dialogando com autores como Souza (2008) e Salgado (2010), observa-se que, uma vez que o processamento auditivo do estudante com dislexia é singular, a prática pedagógica também necessita ser reconsiderada.
O objetivo central desta pesquisa foi explorar o cordel como recurso de leitura assistida, capaz de contribuir para o desenvolvimento da fluência leitora de estudantes com dislexia. Além disso, buscou-se analisar de que maneira o ritmo e a estrutura formal do texto rimado dialogam com dificuldades específicas de leitura, bem como identificar estratégias didáticas mais eficazes para esse público, considerando seleção de textos, adequação linguística, progressão didática e desempenho leitor.
O estudo foi realizado em uma escola municipal do Recife, tendo como sujeitos três professores de Língua Portuguesa que atuam com turmas do 6º ano compostas por estudantes diagnosticados com dislexia. Mais do que verificar o impacto da literatura de cordel em sala de aula, o propósito foi compreender como esse gênero pode estabelecer pontes concretas para o universo da leitura. A pesquisa buscou compreender o papel das rimas e ritmos como instrumentos de acolhimento e inclusão. Para além da análise técnica, este trabalho busca oferecer subsídios práticos aos professores, indicando caminhos pedagógicos capazes de respeitar o ritmo e a singularidade de cada estudante, de modo a transformar a sala de aula em um espaço verdadeiramente inclusivo e fértil para a aprendizagem literária.
Dislexia: panorama neurobiológico e didático - pedagógico
A dislexia é reconhecida internacionalmente na CID-11 sob o código 6A03.1 como um transtorno do neurodesenvolvimento que impacta significativamente as habilidades de leitura, sem relação direta com déficits intelectuais, falta de estímulos socioculturais ou problemas sensoriais (Instituto ABCD, 2024). Trata-se de um transtorno específico de aprendizagem, caracterizado por dificuldades na leitura de palavras e/ou na escrita, envolvendo precisão, velocidade ou ambos.
Essas dificuldades podem se manifestar em diferentes níveis de gravidade e persistem ao longo da trajetória escolar. No campo neurobiológico, estudos como os de Gomes (2022) indicam que pessoas com dislexia apresentam diferenças estruturais e funcionais em áreas relacionadas ao processamento fonológico, principalmente no hemisfério esquerdo do cérebro, região responsável pela associação entre sons da linguagem e suas representações gráficas. Gomes (2022) aponta que as consequências da dislexia vão além da leitura, atingindo a compreensão textual, a experiência escolar, o desenvolvimento da linguagem, a expressão escrita, o bem-estar psicológico e as oportunidades acadêmicas e profissionais. Segundo o autor, essas divergências neurofuncionais dificultam a automatização da leitura, tornando o processo de decifração de palavras mais trabalhoso, moroso e, por vezes, frustrante para o indivíduo.
No contexto escolar, a manifestação da dislexia pode ser observada por meio de dificuldades na leitura, compreensão textual e na correspondência entre grafemas e fonemas. É fundamental destacar que tais obstáculos não resultam de desinteresse ou baixa capacidade dos estudantes, mas sim de uma trajetória neurocognitiva específica, a qual exige compreensão e suporte adequado dos educadores (Rodrigues, 2022). O enfrentamento desses desafios implica, necessariamente, a adoção de práticas pedagógicas inclusivas e sensíveis à diversidade. Como defende Mantoan (2015), a inclusão escolar pressupõe romper com modelos homogêneos de ensino e criar espaços que favoreçam a participação e o desenvolvimento de todos, reconhecendo e acolhendo as singularidades dos estudantes.
Nesse sentido, estratégias baseadas em atividades multi e intermodais, como a conscientização fonológica, o uso de recursos visuais, a leitura compartilhada e a segmentação de textos, têm se mostrado especialmente eficazes para estudantes com dislexia (Rodrigues, 2022; Gomes, 2022). Além dos desafios acadêmicos, é importante mencionar o impacto emocional e social que a dislexia pode ocasionar. O ambiente escolar, quando pautado pela escuta, empatia e práticas adaptadas, transforma-se em espaço de acolhimento e fortalecimento da autoestima. Assim, compreender a dislexia sob uma perspectiva neurobiológica e didático-pedagógica amplia a capacidade da escola de atuar como promotora do desenvolvimento humano em sua totalidade, garantindo equidade de oportunidades e respeito às diferenças.
A Dislexia e os desafios da fluência leitora no cenário educacional
A dislexia configura-se atualmente como um dos principais desafios enfrentados pelas instituições de ensino no processo de ensino-aprendizagem, exigindo atenção especial de educadores e gestores. Pesquisa de Souza (2008) já apontava a gravidade da dislexia enquanto problema social e educacional, ressaltando a necessidade de adaptação do ambiente escolar para acolher estudantes com esse perfil. Mais recentemente, Souza (2023) reforçou a importância de estratégias inclusivas, destacando que as intervenções devem considerar não apenas os sintomas do transtorno, mas também as especificidades e trajetórias individuais dos estudantes com dislexia.
Caracterizada por dificuldades persistentes na leitura, escrita e identificação fonológica, a dislexia demanda intervenções pedagógicas customizadas, viabilizadas por um planejamento escolar estruturado e por práticas inclusivas inovadoras. Estudos nacionais e internacionais, como os sistematizados por Costa (2023), estimam que a prevalência da dislexia se situa entre 10% e 15% da população mundial. É fundamental esclarecer que, diferentemente do que sugerem concepções equivocadas, a dislexia não decorre de ensino ineficaz ou de deficiência intelectual, mas resulta de fatores neurobiológicos e genéticos que interferem no modo como o cérebro processa e decodifica a linguagem escrita.
As barreiras impostas por essa condição frequentemente persistem para além dos anos iniciais, acompanhando o estudante ao longo de toda sua trajetória escolar e exigindo ajustes constantes nas propostas curriculares e nas práticas educativas (Costa, 2023). A ausência de formação específica para professores revela-se como um dos fatores críticos para a inclusão efetiva de estudantes com dislexia. Pesquisas de Tabaquim (2016) e Nascimento (2018) evidenciam que parcela expressiva dos profissionais da educação desconhece tanto as manifestações quanto os procedimentos pedagógicos mais adequados ao transtorno, dificultando a implementação de estratégias que favoreçam a aprendizagem dos estudantes com dislexia. Além da necessidade de qualificação do corpo docente, existem obstáculos institucionais, como o excesso de carga curricular e a pressão por resultados padronizados, limitando a personalização das atividades pedagógicas.
Nas redes públicas, o quadro se agrava diante da carência de equipes multidisciplinares e de especialistas, tornando ainda mais urgente a formação continuada e a sensibilização para a temática. As políticas educacionais brasileiras, a exemplo do Plano Nacional de Educação (Brasil, 2001), defendem a construção de um ambiente escolar plural, integrador e atento às demandas de todos os educandos. Entretanto, a consolidação de uma escola verdadeiramente inclusiva exige reformas estruturais, atualização contínua dos professores e adoção de currículos adaptáveis. Souza (2023) reafirma a relevância do olhar individualizado para os estudantes com dislexia, desde as etapas iniciais do diagnóstico até a definição de práticas pedagógicas capazes de minimizar os impactos da condição.
Diante desse panorama, promover a inclusão de estudantes com dislexia demanda planejamento articulado entre capacitação continuada dos educadores e flexibilização curricular. Somente com o engajamento coletivo da comunidade escolar será possível remover barreiras e garantir acesso equitativo à educação de qualidade. O êxito desse compromisso reflete-se na criação de ambientes acolhedores, nos quais cada estudante possa desenvolver plenamente suas potencialidades, independentemente do diagnóstico. Compreender a dislexia no contexto escolar implica deslocar o foco de análise: mais do que centralizar o olhar no transtorno em si, é imprescindível considerar a interação do estudante com as práticas de leitura e escrita propostas pela escola.
De acordo com definição recente da Associação Brasileira de Dislexia (ABD, 2024), trata-se de um transtorno de origem neurobiológica que compromete o reconhecimento preciso das palavras e dificulta a fluência leitora. O desafio torna-se ainda mais evidente no Ensino Fundamental, período em que a leitura deixa de ser o objetivo central da aprendizagem e passa a ser a principal via de acesso aos conteúdo das diferentes disciplinas.
Para estudantes com dislexia, alcançar a fluência leitora, equilíbrio entre precisão, ritmo e expressividade, constitui um grande obstáculo. Salgado (2010) afirma que as limitações no processamento fonológico, associadas ao elevado esforço cognitivo necessário para a leitura de cada palavra, reduzem significativamente os recursos disponíveis para a compreensão global do texto. Tais dificuldades são potencializadas à medida que os textos escolares aumentam em extensão e complexidade, predominando materiais expositivos e com menor oferta de “pistas” auxiliares, como entonação ou ritmo. Muitas vezes, o esforço constante resulta em desconforto, cansaço e até afastamento das atividades escolares, dificultando o aprimoramento do vocabulário.
Nesse contexto, é necessário repensar as metodologias e oferecer recursos de acessibilidade, como suporte auditivo ou adaptações do material didático, não como concessões opcionais, mas como condições indispensáveis para garantir a participação e a autoestima dos estudantes com dislexia ao longo de sua trajetória escolar.
Considerando esse cenário, torna-se fundamental compreender de que maneira os diferentes aspectos da fluência leitora impactam a aprendizagem dos estudantes com dislexia. Identificar componentes como precisão, automaticidade e prosódia é essencial para fundamentar práticas pedagógicas mais inclusivas, capazes de promover a participação e o desenvolvimento integral desses estudantes no ambiente escolar.
Fluência leitora: dimensões e relevância
No estudo da fluência leitora, destacam-se três componentes fundamentais: precisão, automaticidade e prosódia. A precisão refere-se à habilidade de decodificar corretamente as palavras do texto; a automaticidade diz respeito à capacidade de realizar essa decodificação com rapidez e mínimo esforço, tornando o processo mais eficiente; e a prosódia relaciona-se à utilização adequada de entonação, pausas e ritmo, contribuindo para tornar a leitura em voz alta mais natural e expressiva. Essas habilidades não apenas facilitam o reconhecimento do vocabulário, mas também impactam diretamente a compreensão da leitura, pois, quando o estudante apresenta baixa precisão, tende a comprometer o entendimento global do texto (Morales; Barros, 2023).
De acordo com Kuhn e Stahl (2003), quando o reconhecimento das palavras é consolidado e ocorre de modo automático, o estudante pode direcionar recursos cognitivos à compreensão do texto, dispensando o esforço consciente na decodificação. Ainda segundo os autores, a velocidade na leitura está relacionada à eficiência desse reconhecimento; estudantes que leem lentamente precisam concentrar mais energia no processo de decodificação, o que acaba prejudicando a integração das ideias e, consequentemente, a compreensão global.
Com base nos estudos de Lima (2010), a Teoria do Défice Fonológico é amplamente aceita na comunidade científica e atribui a dislexia a uma deficiência específica no sistema de processamento fonológico, associada a alterações neurais que dificultam a identificação e manipulação dos elementos da linguagem. Esse déficit compromete habilidades fundamentais como a discriminação de fonemas, a consciência de que palavras são compostas por sílabas e fonemas, bem como o domínio das correspondências entre letras e sons.
Além disso, Lima (2010) destaca a Teoria do Défice de Automatização, segundo a qual a dislexia se manifesta também por dificuldades generalizadas em automatizar o reconhecimento das palavras, resultando em uma leitura imprecisa e de baixa compreensão. Estratégias de intervenção frequentemente envolvem o treino intensivo das correspondências grafo-fonêmicas, fusão fonêmica e silábica, além da repetição sistemática da leitura de palavras, frases e textos curtos, favorecendo a automatização das habilidades leitoras.
Conforme apresentado por Lima (2010), o Método Distema, descrito nas pesquisas de Teles e Machado, destina-se ao ensino e à reeducação da leitura e da escrita, fundamentando sua eficácia em uma abordagem multissensorial, estruturada e cumulativa. Segundo a autora, pesquisas apontam que métodos com essas características são particularmente eficientes na intervenção junto a crianças com dislexia, que, além do déficit fonológico, frequentemente apresentam dificuldades de memória auditiva, visual e limitações na automatização das habilidades leitoras. O princípio multissensorial envolve a integração simultânea de diferentes sentidos, como a audição, a visão, a fala e o gesto, favorecendo a aprendizagem por meio da combinação de estímulos auditivos, visuais e cinestésicos. Essa concepção está em conformidade com as recomendações da Associação Internacional de Dislexia, que valoriza abordagens estruturadas e multissensoriais, delineando princípios e orientações educativas específicas para potencializar a aprendizagem dos estudantes com dislexia.
Diante do exposto, observa-se que a promoção da fluência leitora, especialmente em estudantes com dislexia, exige abordagens integradas que contemplem precisão, automaticidade e prosódia, bem como estratégias multissensoriais estruturadas. Esse panorama justifica a busca por práticas inovadoras e adaptativas, capazes de estimular as habilidades fonológicas de maneira significativa e motivadora. Nesse contexto, explora-se, a seguir, o potencial dos textos rimados e metrificados da Literatura de Cordel como recurso pedagógico, investigando de que forma tais características podem contribuir para o desenvolvimento da fluência e para a inclusão de estudantes com dificuldades específicas de leitura.
O Cordel na educação: potencialidades do texto rimado e metrificado
A literatura de cordel tem, historicamente, se consolidado como instrumento pedagógico eficiente. De acordo com Viana (2010), ao longo da história, o cordel desempenhou papel essencial na formação de leitores, atuando tanto como ferramenta de alfabetização quanto meio de difusão do saber e estímulo ao hábito da leitura. O uso de versos rimados e com métricas definidas contribui para a absorção dos conteúdos, característica especialmente vantajosa em ambientes educativos. Carmo (2016) destaca que o cordel, ao se perpetuar e ultrapassar limites temporais e geográficos, possibilitou que pessoas com pouca escolarização passassem a participar de discussões sociais, evidenciando ainda mais seu valor como recurso didático e para o letramento literário.
As virtudes pedagógicas do uso do cordel na educação são amplamente documentadas. Conforme Fernandes (2016), o gênero contribui significativamente para o desenvolvimento da competência leitora, estimulando memória, atenção e fluência textual. No entanto, segundo Rodrigues e Toyota (2024), apesar de sua relevância cultural e pedagógica, o gênero ainda é subutilizado em muitas escolas, em parte devido ao desconhecimento, por parte dos docentes, de seu potencial. Quando empregado de forma planejada e intencional, o cordel pode promover a leitura e o desenvolvimento de competências linguísticas. Assim, ao estimular habilidades como memória, prosódia, fluência e compreensão textual, além de fortalecer a autoestima dos estudantes, o cordel consolida-se como estratégia pedagógica inovadora e inclusiva.
Nesse sentido, é fundamental explorar, na prática pedagógica, de que modo o gênero cordel pode ser incorporado de forma adaptada ao cotidiano escolar, promovendo experiências de leitura que valorizem as necessidades específicas dos estudantes com dislexia.
Práticas e experiências em leitura adaptadas com o gênero Cordel
Pensar em inclusão no processo de desenvolvimento da habilidade leitora implica, necessariamente, reconhecer a diversidade de modos de aprender e ensinar, acolhendo as necessidades de estudantes com dislexia. Para analisar o potencial do gênero cordel no contexto escolar, buscou-se compreender, a partir da perspectiva dos docentes, o papel e a relevância da Literatura de Cordel no desenvolvimento da habilidade leitora, do letramento literário e da compreensão textual. Essa etapa da análise mostrou-se crucial por confrontar o referencial teórico acadêmico com o saber da experiência dos professores que atuam diretamente na sala de aula.
Com o intuito de ilustrar, de forma prática, como docentes utilizaram o gênero cordel em contextos de ensino inclusivo durante a pesquisa, apresentam-se, a seguir, o Quadro 1 e o Quadro 2, referentes ao plano de aula intitulado “Ritmo, Rima e Identidade: o cordel “A Boneca Abayomi”. Esse plano foi elaborado com base em princípios de acessibilidade e nas recomendações de docentes que atuam com estudantes com dislexia, contemplando atividades que valorizam o ritmo, a rima e a identidade cultural. Os quadros detalham as etapas, os recursos utilizados e as estratégias adaptativas propostas, evidenciando como práticas pedagógicas inclusivas podem potencializar o desenvolvimento da fluência e promover a participação ativa de todos os estudantes.
Quadro 1 - Estratégias de intervenção com a obra de Madalena Castro
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Cordel 2: A história da boneca Abayomi (Madalena Castro) / Bloco 5 |
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É PRECISO, MINHA GENTE, FAZER A PRESERVAÇÃO DA BONEQUINHA CRIADA EM MEIO A TANTA AFLIÇÃO POR MULHERES QUE SÓ TINHAM MUITO AMOR NO CORAÇÃO
O AFRICANO FOI QUEM FEZ NOSSO BRASIL CRESCER COM A FORÇA DE SEUS BRAÇOS LUTOU PRA SOBREVIVER TENTANDO ESQUECER A TERRA QUE UM DIA O VIU NASCER A BONECA É RESISTÊNCIA É PODER E TRADIÇÃO DA NOSSA CULTURA AFRO- BRASILEIRA, É AFIRMAÇÃO POR ISSO, ABAYOMI! E VIVA A SUA NAÇÃO!
A HISTÓRIA DA ABAYOMI AGORA ESTOU ENCERRANDO SE NÃO EXPLIQUEI DIREITO PEÇO, VÁ ME DESCULPANDO E AVISE PARA QUE EU SEMPRE SIGA FIRME PESQUISANDO
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Fonte: Quadro elaborado pela autora com base nas sequências
didáticas dos professores (bloco 5 de atividades com o cordel), 2025.
Quadro 2 - Plano de Aula: Ritmo, Rima e Identidade – A Boneca Abayomi
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Etapa / Duração |
Atividade Pedagógica |
Recursos Digitais e Materiais |
Estratégias de Inclusão |
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I. Imersão e Acolhida (20 min) |
Leitura acompanhada do Cordel de Madalena Castro com audição da narração original. |
Padlet (Texto) e Spotify (Áudio). |
Multimodalidade: uso da fonte OpenDyslexic e áudio simultâneo para reduzir a carga cognitiva da leitura textual. |
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II. "O Som da Rima" (30 min) |
Leitura coletiva ritmada; estudantes batem duas palmas nas rimas dos versos 2, 4 e 6 (sextilha). |
Texto impresso ou digital (Padlet) |
Cinestesia/Multissensorial: o impacto físico das palmas ancora o som da rima no corpo, facilitando a consciência fonológica. |
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III. Localização (D1) (30 min) |
Assistir ao vídeo da autora e localizar informações explícitas ("tocar" na resposta correta). |
Vídeo YouTube (Madalena Castro) e dispositivos móveis/papel. |
Foco visual e tátil: substituições da escrita extensa pelo "toque" na palavra-chave; o vídeo oferece trilhas visuais e expressões verbais para a interpretação. |
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IV. Oficina de Nós (30 min) |
Confecção da Boneca Abayomi seguindo o passo a passo. |
Retalhos de tecido e vídeo tutorial (Mundo Literário). |
Aprendizagem prática: a ação motora fina relaxa a ansiedade e materializa o conceito de "estrofação" (cada nó representa uma estrofe/parte do todo). |
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V. Fechamento (10 min) |
Recitação final com batidas suaves no peito, simbolizando o ritmo do coração e a ancestralidade. |
A própria Boneca Abayomi confeccionada. |
Engajamento socioemocional: conexão afetiva com o tema, removendo a pressão por desempenho acadêmico e focando na identidade e pertencimento dos estudantes. |
Fonte: Quadro elaborado pelo autor com base nas sequências didáticas dos professores 2025.
O conjunto de estratégias adotadas na sequência didática “Ritmo, Rima e Identidade do cordel: A Boneca Abayomi”, da cordelista Madalena Castro, está em consonância com as evidências destacadas por Gomes (2022) e Rodrigues (2022), ao demonstrar que o contato dos estudantes com formas poéticas e rimadas, como o cordel, pode favorecer a construção da fluência leitora e amplia as possibilidades de participação inclusiva. Ao privilegiar atividades como a leitura acompanhada de áudio, o trabalho rítmico com palmas, o uso de elementos visuais e táteis, bem como a valorização da expressão corporal, a proposta reforça o papel das abordagens multissensoriais e multimodais no processo de aprendizagem. Tais abordagens são destacadas na literatura como essenciais para a superação das barreiras impostas pela dislexia no contexto escolar (Lima, 2010; Associação Internacional de Dislexia, 2020; Gomes, 2022).
O uso de recursos acessíveis, como a fonte OpenDyslexic e o acionamento de dispositivos tecnológicos (Padlet, Spotify), evidencia a preocupação em criar um ambiente menos hostil e mais atrativo à experimentação de sons, rimas e palavras. Além disso, as adaptações nas tarefas, como a substituição da escrita exaustiva por toques na palavra-chave ou o trabalho de compreensão textual com apoio visual e auditivo, refletem a importância de respeitar as diferenças e potencializar as habilidades de cada estudante, conforme defendido por Mantoan (2015). Dessa forma, a sequência utilizada integra as recomendações de diferentes autores e exemplifica como práticas pedagógicas criativas e cuidadosas podem não apenas promover a aprendizagem, mas também fortalecer aspectos socioemocionais e identitários dos estudantes, contribuindo para a efetivação de uma educação verdadeiramente inclusiva.
METODOLOGIA
A pesquisa foi desenvolvida com abordagem qualitativa, delineamento descritivo-analítico e orientação aplicada, tendo como foco a implementação de práticas inclusivas no ensino fundamental de uma escola municipal de tempo integral, localizada no Recife. O estudo centrou-se nas experiências de três docentes de Língua Portuguesa que atuavam no 6º ano. A seleção desse contexto justificou-se tanto pela relevância do tema para a realidade escolar quanto pela acessibilidade proporcionada pela inserção da pesquisadora no corpo docente da instituição, garantindo um olhar sensível e alinhado à dinâmica cotidiana do ambiente investigado.
O rigor ético foi observado em todas as etapas da pesquisa. Antes do início da coleta de dados, o projeto foi submetido ao Comitê de Ética em Pesquisa, em conformidade com as orientações da Resolução CNS nº 510/2016. Durante o processo, os participantes foram devidamente informados quanto aos objetivos, procedimentos, possíveis riscos e benefícios do estudo, por meio de um Termo de Consentimento Livre e Esclarecido, que também assegurou o direito de recusa ou retirada voluntária, sem nenhum prejuízo.
Todas as exigências éticas foram respeitadas, incluindo a proteção da identidade dos docentes, o sigilo das informações e o manejo responsável dos dados coletados. A pesquisa foi aprovada pelos órgãos competentes sob o registro CAAE nº 84631924.0.0000.5207 e Parecer Consubstanciado nº 7.280.189, ratificando o compromisso com a integridade e a responsabilidade científica em todas as etapas do trabalho.
A produção dos dados ocorreu por meio de questionário semiestruturado online, respondido pelos professores regentes das turmas-alvo, sendo complementada por perguntas indiretas acerca das sequências didáticas realizadas em sala de aula. O instrumento de coleta, elaborado e validado em pré-teste, abrangeu tanto perguntas fechadas, relativas à trajetória formativa, concepções de leitura, uso do cordel e práticas de acessibilidade, quanto questões abertas, com o objetivo de ampliar o entendimento qualitativo das experiências docentes.
A análise dos resultados foi fundamentada nos pressupostos da análise de conteúdo de Bardin, permitindo mapear categorias, identificar padrões e contrastar as narrativas entre os participantes. Por meio da combinação de estratégias de triangulação, devolutiva parcial e observância rigorosa dos critérios de correção e transparência, o estudo buscou qualificar a compreensão sobre o papel da literatura de cordel na promoção da leitura e na construção de práticas pedagógicas mais acessíveis a estudantes com dislexia.
ANÁLISE E DISCUSSÃO DOS RESULTADOS
A análise fundamentou-se nas respostas obtidas por meio dos questionários aplicados aos professores, bem como na observação da sequência didática, visando compreender suas percepções acerca das práticas realizadas em sala de aula. Para a interpretação dos dados, foram definidos três eixos principais: a compreensão de inclusão e leitura, o repertório docente sobre dislexia e as estratégias empregadas com a literatura de cordel, especialmente aquelas associadas ao engajamento, à fluência e à compreensão leitora.
As respostas aos questionários indicaram que a leitura inclusiva é entendida predominantemente como a oferta de oportunidades e acesso, enquanto a prática inclusiva foi associada à adaptação de atividades em função das necessidades dos estudantes. No entanto, identificou-se uma familiaridade limitada, por parte dos docentes, com a temática da dislexia, bem como relatos sobre resistência inicial dos estudantes à participação nas atividades, o que evidencia a necessidade de um planejamento mais estruturado e de acompanhamento contínuo para garantir a permanência dos estudantes nas tarefas propostas.
No que se refere às estratégias didáticas, emergiu uma dificuldade de ordem prática: embora os docentes reconheçam a relevância de práticas específicas para a leitura de estudantes com dislexia, foi constatada a ausência de procedimentos previamente sistematizados, sugerindo que o desenvolvimento dessas ações ocorre ao longo da própria experiência docente. Essa constatação sinaliza uma lacuna formação continuada dos profissionais e aponta para a necessidade de elaboração e de orientações operacionais que viabilizem a aplicação eficaz de estratégias inclusivas no cotidiano escolar.
Em relação ao uso da literatura de cordel, os docentes relataram um percurso positivo. Destaca-se o uso inicial de textos com maior apelo lúdico, o desenvolvimento progressivo para o estudo das características do gênero e sua contextualização, além da realização de atividades complementares à leitura e compreensão textual. Essas respostas evidenciam que o cordel possibilita a organização de um percurso didático estruturado, com mediação docente clara e objetivos definidos.
Os efeitos percebidos relacionam-se, principalmente, à forma como a atividade foi conduzida, com a fragmentação do texto em blocos curtos para reduzir sobrecarga e manter a sequência narrativa, além de orientações simples de leitura, como pausar a cada verso. Tais estratégias foram associadas à redução do cansaço, diminuição da frustração e maior permanência dos estudantes nas atividades, do início ao fim.
Ainda segundo os relatos dos docentes, durante a apresentação do cordel houve explicação sobre sua origem e estrutura, condução dialogada acerca de rimas e estrofes, bem como o uso de recursos visuais e auditivos. Observou-se que, antes da sequência com o cordel, havia maior dificuldade dos estudantes com rimas e leitura lenta; após as atividades, percebeu-se melhora, com aumento da confiança e iniciativa dos alunos ao solicitar leitura em voz alta.
Tabela 1 - Síntese dos achados por eixo analítico
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Eixo analítico |
Evidência predominante |
Achado central |
Implicação didática |
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Concepção de leitura inclusiva |
Questionário |
Inclusão associada a acesso e oportunidades |
Planejamento com acessibilidade textual e critérios graduais |
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Concepção de prática inclusiva |
Questionário |
Adaptação de atividades segundo necessidades dos estudantes |
Adequações com metas explícitas e acompanhamento formativo |
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Repertório sobre dislexia |
Questionário |
Relato de baixa familiaridade prévia |
Formação continuada e elaboração de protocolos operacionais de adaptação |
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Estratégias didáticas com cordel |
Observação e relato docente |
Fragmentação em cinco estrofes e foco em rima e ritmo |
Controle de extensão, segmentação de tarefas e mediação explícita |
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Indicadores de mudança |
Observação e relato docente |
Aumento de confiança, participação e solicitação de leitura |
Monitoramento por registros sistemáticos e devolutivas consistentes |
Fonte: Tabela elaborada pela autora com base nos dados da pesquisa 2025.
A análise da Tabela 1 evidencia que todos os eixos analíticos foram fundamentados exclusivamente nas respostas ao questionário aplicado aos docentes. Isso significa que tanto os conceitos de inclusão e repertório sobre dislexia, quanto os indicadores de mudança identificados, baseiam-se nas percepções e autorrelatos dos participantes. Com base nesses relatos, foi possível constatar que a utilização do cordel, quando associada à organização das atividades em blocos curtos e ao foco em rima e ritmo, relaciona-se à percepção de aumento da confiança, maior participação dos estudantes e melhorias na fluência leitora. Os dados também sinalizam a necessidade de um planejamento mais estruturado, de adequações específicas e de formação continuada para os docentes. Assim, os achados fornecem subsídios para a elaboração de recomendações didáticas e orientações formativas alinhadas à realidade escolar dos participantes.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Durante o desenvolvimento das entrevistas e da interação com os professores da escola analisada, ficou evidente que a promoção da inclusão é marcada por inúmeros questionamentos e obstáculos. Os dados recolhidos apontam que, mesmo com o apoio entre pares e a colaboração da equipe gestora, muitos docentes ainda vivenciam o desafio da dislexia de forma isolada, devido às complexidades inerentes à condição.
Verificou-se uma distância significativa entre as recomendações previstas na legislação vigente, como a Lei n.º 14.254/2021, que estabelece o acompanhamento integral ao estudante disléxico, e a realidade das práticas escolares. Quanto à formação dos professores de Língua Portuguesa, percebe-se carência de debates sobre inclusão, que vão além dos conteúdos linguísticos. Nesse contexto, as práticas inclusivas dependem fundamentalmente do esforço e da proatividade dos próprios professores, pois a ausência de uma ação institucional estruturada se apresenta como um entrave. Diante disso, destaca-se a urgência em migrar para um modelo institucional que assegure políticas de formação continuada fundamentadas em evidências científicas, especialmente voltadas para as especificidades da neurodiversidade, equiparando a prática pedagógica ao compromisso ético já identificado no corpo docente.
O trabalho com literatura de cordel revelou-se muito além do esperado, trazendo benefícios pedagógicos marcantes. Ao longo da pesquisa, notou-se que o cordel se transforma em elemento de pertencimento: para estudantes com dislexia, que muitas vezes sentem receio diante do texto, o ritmo da redondilha maior, caracterizado pelas sete sílabas poéticas, tornou-se um suporte relevante. O ritmo do cordel ultrapassa o campo estético e funciona como ferramenta de facilitação cognitiva. Os depoimentos docentes ressaltam que a participação física no ritmo, marcando versos com movimentos do corpo, transforma o momento de leitura em uma vivência multissensorial, essencial para atenuar as dificuldades fonológicas desses estudantes e caracterizando o cordel como um recurso social de aprendizado.
Outro aspecto notável foi a eficácia da leitura guiada: a presença ativa do professor, combinada ao uso de recursos auditivos e à dinâmica do jogral, impulsionou o progresso das habilidades leitoras. O cordel também se mostrou decisivo para o avanço da fluência, devido à sua estrutura rítmica e rimada. Da mesma forma, adaptações como imprimir o texto em fonte ampliada (Arial 14), utilizar caixa alta e régua leitora, transcendem a função de ajuste e adquirem o papel de ações acolhedoras, ofertando mais organização visual e concentração para o estudante disléxico.
O fato de o Cordel fazer parte da cultura do Nordeste teve um papel importante no desenvolvimento espontâneo da leitura e das experiências textuais propostas no projeto. Por estar ligado ao cotidiano dos alunos, esse material tornou-se mais fácil de acessar e mais significativo, o que ajudou a engajar todos nas atividades realizadas. Nas aulas de Língua Portuguesa, organizadas a partir de projetos de leitura inclusivos, foi possível perceber a participação ativa de todos os estudantes, independentemente das dificuldades que enfrentavam, favorecendo a integração e o reconhecimento coletivo das práticas de leitura, como a leitura ecoada e o jogral. Além disso, observou-se que os professores já tinham experiência em trabalhar com o gênero Cordel em sala de aula, o que colaborou para que as atividades fossem conduzidas de forma mais confiante e eficaz.
Os resultados do estudo confirmam o potencial elevado da literatura de cordel como instrumento de estímulo à leitura em ambientes inclusivos para dislexia, sobretudo quando os docentes organizam as atividades com estrutura segmentada, destacam rimas, versos e estrofes através de mediação interativa, e fazem uso de suportes visuais e auditivos para ampliar o acesso.
As evidências coletadas sugerem que tais práticas contribuem para aumento da confiança e da disposição para a leitura oral, tornando as atividades menos exaustivas, sustentando o interesse dos estudantes durante a aula e promovendo avanços na compreensão e desempenho em leitura.
Em nível profissional e institucional, observa-se que, embora a inclusão seja reconhecida como fundamental, persistem obstáculos relacionados ao repertório inicial dos docentes sobre dislexia e à carência prévia de estratégias sistematizadas.
Diante desse cenário, recomenda-se fortalecer políticas institucionais de formação continuada, sistematizar protocolos didáticos, promover a produção de materiais acessíveis e optar por práticas pedagógicas pautadas em evidências, a fim de consolidar uma educação verdadeiramente inclusiva e sensível à singularidade dos estudantes com dislexia.
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Recebido: 25/04/2026
Aprovado: 21/09/2026
[1] Mestra em Educação Inclusiva pelo Mestrado Profissional em Educação Inclusiva em Rede Nacional (PROFEI) da Universidade de Pernambuco (UPE), Recife, PE, Brasil. E-mail: eulinafraga@hotmail.com
[2] Doutor em Educação pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Professor Adjunto do curso de Pedagogia e de outras licenciaturas da Universidade de Pernambuco (UPE), Campus Mata Norte, e docente do Mestrado Profissional em Educação Inclusiva em Rede Nacional (PROFEI) e do Programa de Pós-Graduação em Educação (PPGE-UPE), Nazaré da Mata, PE, Brasil. E-mail: josaniel.vieira@upe.br