EDUCAÇÃO DIGITAL E INCLUSÃO NA SOCIEDADE EM REDE: O PAPEL MEDIADOR DO PROFESSOR NA INTEGRAÇÃO CRÍTICA DAS TDIC[1]

 

DIGITAL EDUCATION AND INCLUSION IN THE NETWORK SOCIETY: THE TEACHER’S MEDIATING ROLE IN THE CRITICAL INTEGRATION OF DICT

 

Frans Robert Lima Melo[2]

Cássia Regina Dias Pereira[3]

Rosangela Trabuco Malvestio da Silva[4]

 

RESUMO

 

As Tecnologias Digitais de Informação e Comunicação (TDIC) emergem como expressão do processo histórico humano contemporâneo, configurando-se, inclusive como condições de existência e de interação social. Essa pesquisa teve como objetivo analisar como as Tecnologias Digitais da Informação e Comunicação podem ser integradas de forma crítica e inclusiva ao processo de ensino-aprendizagem, destacando o papel mediador do professor e os desafios da educação digital na contemporaneidade. Para tanto, adotamos a pesquisa qualitativa do tipo bibliográfico. A filtragem do referencial teórico foi conduzida por meio de buscas de artigos e livros na base de dados do Google Scholar, utilizando os descritores: TDIC, Inclusão Digital e Educação Digital. O recorte temporal compreendeu publicações realizadas entre 2021 e 2025, sendo a busca desse material bibliográfico realizada nos meses de março e abril de 2026. A partir disso, foram selecionadas nove pesquisas acadêmicos. A literatura investigada evidenciou que a inserção das TDIC no contexto escolar representa uma possibilidade para a construção de práticas educativas inovadoras, colaborativas e críticas, especialmente quando fundamentadas nos princípios da

inclusão digital. As ações de mediação docente apresentam elevada relevância no que tange à promoção de uma educação digital voltada para todos. Concluímos que a integração das TDIC à prática pedagógica deve ser orientada para perspectiva crítica, reconhecendo a escola como um espaço de exercício da cidadania e transformação social, contribuindo para a superação das desigualdades e para a consolidação da instituição escolar como espaço de produção coletiva de saberes.

 

Palavras-chave: Tecnologias Digitais de Informação e Comunicação. Sociedade em Rede. Inclusão Digital. Cultura Digital. Educação Digital.

 

ABSTRACT

 

The Digital Information and Communication Technologies (DICT) emerge as an expression of the contemporary human historical process, constituting, among other aspects, conditions for existence and social interaction. This study aimed to analyze how Digital Information and Communication Technologies can be critically and inclusively integrated into the teaching-learning process, highlighting the teacher's mediating role and the challenges of digital education in contemporary society. To this end, a qualitative bibliographic research approach was adopted. The selection of the theoretical framework was carried out through searches for articles and books in the Google Scholar database, using the descriptors: DICT, Digital Inclusion, and Digital Education. The time frame comprised publications produced between 2021 and 2025, with the bibliographic search conducted during March and April 2026. As a result, nine academic studies were selected. The literature reviewed showed that the incorporation of DICT into the school context represents an opportunity for the development of innovative, collaborative, and critical educational practices, especially when grounded in the principles of digital inclusion. Teaching mediation actions play a highly relevant role in promoting digital education aimed at all individuals. It was concluded that the integration of DICT into pedagogical practice should be guided by a critical perspective, recognizing the school as a space for the exercise of citizenship and social transformation, contributing to overcoming inequalities and consolidating the educational institution as a space for the collective production of knowledge.

 

Keywords: Digital Information and Communication Technologies. Network Society. Digital Inclusion. Digital Culture. Digital Education.

 

Editores do dossiê: Profa. Dra. Ana Maria de Barros (UNESPAR), Profa. Dra. Elisa Tomoe Moriya Schlünzen (UNESP) e Prof. Dr. Edison Trombeta de Oliveira (CPS - Centro Paula Souza)

 

INTRODUÇÃO

 

A sociedade contemporânea é caracterizada pelo avanço das tecnologias em diversos setores da sociedade, fenômeno que também se reflete na educação. Nesse contexto, as Tecnologias Digitais da Informação e Comunicação (TDIC) têm se mostrado instrumentos para enriquecer as práticas de ensino, especialmente quando se trata de promover a inclusão de estudantes com necessidades educacionais específicas. Segundo Carvalho et al. (2024) as TDIC constituem um conjunto de ferramentas e dispositivos tecnológicos destinados à coleta, ao processamento, ao armazenamento, à disseminação e à transmissão de informações por meio de plataformas digitais.

A compreensão das TDIC exige situá-las no contexto da denominada Sociedade em Rede. Conforme indicado por Castells e Cardoso (2005), essa configuração das relações sociais são experimentadas por meio das redes digitais, tanto nos processos de produção, circulação e apropriação da informação, de tal modo a influenciar as relações econômicas, culturais e educacionais.

A partir dessa demanda social informatizada, entendemos que a inclusão do meios digitais não se restringe ao acesso a equipamentos e conectividade, mas envolve condições para que os sujeitos possam utilizar de forma consciente as tecnologias, produzindo conhecimentos e participando dos diferentes espaços sociais mediados digitalmente (Marcon et al., 2023). Assim, a educação digital deve ser compreendida como um processo formativo voltado ao desenvolvimento de competências críticas e éticas relacionadas ao uso das tecnologias, superando perspectivas meramente instrumentais.

Nesse cenário, o docente possui um papel de destaque nos processos de aprendizagem ligados às TDIC. Na definição de Mosetto (2000) apud Vieira, Casagrande e Bianca (2024) a mediação pedagógica consiste no processo em que o professor atua como intermediário entre o estudante e o conhecimento, favorecendo a interação e a construção significativa da aprendizagem, assumindo o papel de facilitador, buscando estimular e motivar o processo de aprendizagem.

Nessa perspectiva, o professor deixa de ser um transmissor de conteúdos para atuar como facilitador de experiências de aprendizagem colaborativas e criativas, capazes de integrar as tecnologias de forma reflexiva ao cotidiano escolar.

Diante das necessidades de reflexão acerca desse tema, essa pesquisa teve por objetivo analisar como as Tecnologias Digitais da Informação e Comunicação podem ser integradas de forma crítica e inclusiva ao processo de ensino-aprendizagem, destacando o papel mediador do professor e os desafios da educação digital na contemporaneidade.

Para tanto, utilizamos do método qualitativo bibliográfico para apresentar reflexões acerca do tema. Conforme indicado por Gil (2008) a pesquisa bibliográfica caracteriza-se pelo levantamento, análise e interpretação de materiais já publicados (livros, artigos e demais produções científicas) com o intuito de reunir e compreender as contribuições teóricas existentes sobre o tema em estudo.

A seleção e filtragem do referencial teórico foi conduzida por meio de buscas de artigos e livros na base de dados do Google Scholar, utilizando como descritores os termos: “Tecnologias Digitais de Informação e Comunicação”; “Inclusão Digital”; e “Educação Digital”, de forma isolada e combinada por meio dos operadores booleanos AND e OR. Entendemos que tais descritores são palavras alinhadas à proposta desse estudo, proporcionando reflexões relacionadas à temática.

Como forma de exclusão delimitamos em nossa pesquisa exclusivamente trabalhos de língua portuguesa, adotando ainda, como recorte temporal, o período de publicações de 2021 a 2025, compreendendo que se trata de discussões contemporâneas. Ressaltamos que a busca desse material bibliográfico foi realizada nos meses de março e abril de 2026.

A partir disso, foram selecionadas nove pesquisas, organizadas em um quadro, considerando o ano da públicação, natureza acadêmica, título da pesquisa e os nomes dos autores envolvidos nas investigações (Quadro 1).

 

Quadro 1 - Pesquisas acadêmicas utilizadas nessa pesquisa

Ano

Natureza Acadêmica

Título

Autor(es)

2021

Artigo

Cibercultura e educação: pontos e contrapontos entre a visão de Pierre Lévy e David Lyon

MIRANDA, Angela Luzia

2021

Artigo

As TDICS atreladas a mediação pedagógica no viés das práticas docentes: contribuições para a Educação Inclusiva

RAMOS, Andréa Karine Menezes de Oliveira; PRIMON, Janete Aparecida; CIRINO, Roseneide Maria Batista

2022

Artigo

Mediação pedagógica e tecnológica: conceitos e reflexões sobre o ensino na cultura digital. 

OLIVEIRA, Achilles Alves de; SILVA, Yara Fonseca de Oliveira e

2022

Artigo

Tecnologias digitais nos processos de ensino aprendizagem e inclusão de alunos com deficiência

VILLELA, Ana Paula; PRADO, Jesus Vanderli do; BORGES, Rosimeire Aparecida Soares

2023

Capítulo de livro

Processos de inclusão digital como espaços de pesquisa e reflexão crítica sobre a apropriação das TDIC na educação básica

MARCON, Karina, et al

2024

Capítulo de livro

Aprendizagem significativa por meio das tecnologias digitais da informação e comunicação.

CARVALHO, Heitor Pereira de; et al

2024

Artigo

A mediação e a contribuição das Tecnologias Digitais da Comunicação e Informação para a Educação Inclusiva

VIEIRA, Leociléa Aparecida; CASAGRANDE,  Keli; BIANCA, Mariane Tonolli Della Bianca

2024

Capítulo de livro

Cultura Digital e a Educação

YANAZE, Leandro Key Higuchi; AMARAL, Fernanda Santos; SANTOS, Rosângela Miranda dos

2025

Artigo

Ensinar na Era Digital: o professor, a IA Generativa e o planejamento pedagógico consciente

MANJINSKI JUNIOR, Geraldo; MANJINSKI, Everson

Fonte: Elaborado pelos pesquisadores, 2026.

 

A justificativa para investigar essa problemática fundamenta-se na necessidade de compreender as transformações sociais, culturais e educacionais decorrentes da consolidação da Sociedade em Rede, bem como seus desdobramentos para os processos de ensino e aprendizagem. Então, consideramos relevante discutir o conceito de inclusão digital e suas inter-relações com a educação inclusiva, uma vez que acesso, a apropriação e o uso críticodas tecnologias representam dimensões fundamentais para a garantia do direito à aprendizagem e à participação social.

Ademais, buscamos investigar o papel do professor no processo de integração das TDIC, compreendendo sua atuação como elemento indispensável na promoção de uma educação crítica, inclusiva e socialmente referenciada. Por fim, propomos refletir sobre as práticas pedagógicas que assegurem o uso das tecnologias no ambiente escolar, favorecendo a equidade, a autonomia e a formação de sujeitos capazes de atuar de forma consciente e transformadora na sociedade como um todo, inclusive em termos digitais.


 

RESULTADO E DISCUSSÕES

 

Partindo dos estudos de Marx (1998), podemos verificar que um marco relevante nas relações sociais na história humana está caracterizado pela necessidade de produzir os elementos indispensáveis à sua própria sobrevivência, denominados pelo autor como meios materiais da vida. Tal necessidade, essencial para a continuidade da existência, constitui-se como condição estruturante, tanto no presente quanto em períodos históricos passados, configurando-se como condição fundamental que sustenta todas as demais esferas da vida em sociedade.

Nesse sentido, o trabalho assume papel de destaque na constituição do ser humano como sujeito social, uma vez que, ao intervir intencionalmente sobre a natureza, os indivíduos não apenas transformam o mundo ao seu redor, mas também a si próprios (Marx, 1998). Impulsionado pela necessidade da sobrevivência, elaborou instrumentos, organizou práticas produtivas e desenvolveu formas de pensamento que possibilitaram atribuir significado às suas ações e ao ambiente em que se insere.

As TDIC, na esteira de Marx, podem ser compreendidas como expressão do trabalho na sociedade contemporânea, ou seja, condição necessária da vida humana coletiva contemporânea, uma vez que a organização social perpassa pelo o que Castells e Cardoso (2005) denominaram como Sociedade em Rede.

 

A sociedade em rede, em termos simples, é uma estrutura social baseada em redes operadas por tecnologias de comunicação e informação fundamentadas na microelectrónica e em redes digitais de computadores que geram, processam e distribuem informação a partir de conhecimento acumulado nos nós dessas redes (Castells & Cardoso, 2005, p. 20).

 

Com isso, verificamos que a Sociedade em Rede está inserida em um contexto social e, portanto, também reflete os anseios da sociedade e dos sujeitos que nela estão integrados. Para esses autores são dois os aspectos essenciais que caracterizam essa Sociedade em Rede, sendo a centralidade das redes digitais de informação e comunicação, e ainda, a globalização e seletividade das conexões.  

 

Uma característica central da sociedade em rede é a transformação da área da comunicação, incluindo os media. A comunicação constitui o espaço público, ou seja, o espaço cognitivo em que as mentes das pessoas recebem informação e formam os seus pontos de vista através do processamento de sinais da sociedade no seu conjunto (Castells & Cardoso, 2005, p. 23).

 

A partir do exposto, podemos analisar que a comunicação constitui um momento de construção de conhecimentos e participação social. Com isso, a escola passa a assumir um papel na formação de sujeitos capazes de interagir criticamente, sobretudo junto aos fluxos informacionais que circulam nas redes digitais.

No contexto da globalização, Castells e Cardoso (2005) destacam que a Sociedade em Rede promove uma descentralização do poder mediada pelos meios digitais. Essa nova configuração sociopolítica é marcada pela interconexão entre instituições e pela redefinição das formas de poder, em um cenário no qual as TDIC desempenham função estruturante de disseminação da informação. Nesse sentido, os autores afirmam:

 

A governação é realizada numa rede, de instituições políticas que partilham a soberania em vários graus, que se reconfigura a si própria numa geometria geopolítica variável. Denominei isto como conceito de Estado em rede. [...] A globalização é a forma que toma a difusão da sociedade em rede a uma escala planetária, e as novas tecnologias de comunicação e transportes fornecem a infra-estrutura necessária ao processo de globalização [sic] (Castells & Cardoso, 2005, p. 26).

 

A escola, como parte integrante do Estado, não está apartada dessas formas globalizadas de organização do poder e da circulação da informação. Ao contrário, encontra-se inserida nas dinâmicas da Sociedade em Rede, sendo constantemente impactada pelas transformações da sociedade. À luz desse debate, as demandas relacionadas à educação digital passam a integrar as políticas educacionais e as práticas pedagógicas, exigindo que as instituições escolares desenvolvam estratégias capazes de promover o uso crítico e consciente das tecnologias.

Diante de tais transformações a educação nacional inclui o ensino da Educação Digital na rede pública. A Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB), atualizada pela Lei nº 14.533/2023, instituiu a Política Nacional de Educação Digital, incorporando o ensino de saberes digitais como eixo integrador da Educação Básica (Brasil, 2023). Essa normativa propõe o desenvolvimento de competências voltadas ao uso crítico, ético e criativo das tecnologias, com o intuito de formar sujeitos capazes não apenas de consumir conteúdos digitais, mas de atuar de maneira ativa e transformadora em uma sociedade mediada por recursos tecnológicos.

Pensando em espaços institucionalizados, no ambiente educacional essa Sociedade em Rede pode ser observada na forma como as TDIC reorganizam práticas de ensino e aprendizagem, possibilitando a construção coletiva do conhecimento em redes interativas e colaborativas. Conforme é destacado por Marcon et al. (2023), a utilização das TDIC foram aceleradas após a pandemia de COVID-19, sobretudo, na perspectiva da inclusão digital.

Entretanto, essa aceleração do uso das TDIC no período pós-pandemico não pode ser interpretada automaticamente como ampliação da inclusão digital. Embora o acesso às tecnologias tenha se expandido em muitos contextos escolares, persistem desigualdades relacionadas à infraestrutura tecnológica, à conectividade e à formação docente. Dessa forma, os avanços observados no uso das tecnologias coexistem com limitações estruturais que podem reproduzir exclusões já existentes no sistema educacional, revelando uma contradição característica da Sociedade em Rede. Entendemos que a ampliação das possibilidades de conexão não elimina, por si só, as desigualdades de participação e apropriação dos recursos digitais.

Villela, Prado e Boges (2022) ressaltam que o mundo digital se faz presente na educação ao favorecer a ampliação da autonomia dos sujeitos e ao permitir que estudantes e professores deixem de ser apenas receptores de conteúdos para se tornarem também produtores de saberes. Assim, pensar a educação na Sociedade em Rede, precisa não apenas incorporar recursos tecnológicos, mas também desenvolver uma formação crítica e emancipadora, capaz de preparar os indivíduos para interpretar, selecionar e produzir conhecimentos de forma consciente, garantindo que a cibercultura não se restrinja a um consumo passivo de informações, mas constitua espaço de criação, participação democrática e transformação social.

No cénario educacional brasileiro, verificamos que há desafios a serem enfrentados para a consolidação da educação digital inclusiva. A própria Política Nacional de Educação Digital (Brasil, 2023) estabelece como um dos seus eixos a inclusão digital. Ademais, constitui uma das estratégias do eixo Educação Digital Escolar dessa política pública: “adoção de critérios de acessibilidade, com atenção especial à inclusão dos estudantes com deficiência” (Brasil, 2023, p. 1).

A literatura analisada permitiu compreender que as TDIC constituem recursos para a promoção da educação digital em uma perspectiva inclusiva. Conforme destacam Villela, Prado e Borges (2022), o potencial inclusivo dessas tecnologias depende das condições de acesso, da acessibilidade dos recursos utilizados e, sobretudo, da mediação pedagógica realizada pelos professores, responsável por transformar ferramentas digitais em instrumentos efetivos de participação e aprendizagem.

Ainda, Villela, Prado e Boges (2022), ressaltam que os alunos do século XXI, inserido no mundo globalizado (em rede), já estão inclinados ao uso massivo das mídias e tecnologias digitais, uma vez que nasceram em um contexto no qual tais formas sociotécnicas já estavam constituídas e integradas ao cotidiano da vida social. Esses estudantes possuem novas maneiras de habitar e se concectar uns com os outros. Nesse sentido, meio escolar deve preparar os docentes para utilizarem das TDIC ao seu favor no processo ensino-aprendizagem.

A utilização do celular, computador, tablet, blogs e redes sociais são exemplos de fontes utilizadas a todo momento pelos indivíduos, trazendo para a realidade um mundo virtual com inúmeras alternativas e características. Quando esses dispositivos entram no contexto educacional, de maneira pedagógica e corretamente empregada, são capazes de transformar possibilidades que, até então, eram limitadas e, agora, evoluíram em um universo repleto de ações (Villela, Prado & Boges, 2022, p .4).

 

Considerando esse panorama, a discussão sobre o uso das TDIC também se articula a Educação Inclusiva, uma vez que as tecnologias digitais podem constituir-se como recursos voltados para a promoção da acessibilidade, da participação e da aprendizagem de todos os estudantes. Para alunos público da Educação Especial, as mídias digitais, quando planejadas pedagogicamente, possibilitam múltiplas formas de comunicação, expressão e interação, favorecendo a eliminação de barreiras atitudinais, comunicacionais e pedagógicas presentes no ambiente escolar.

Sobretudo, ao analisar o aspecto cultural sob a perspectiva do materialismo histórico-dialético, compreendemos que essa dimensão se constitui a partir da prática social, sendo indissociável das condições materiais de produção e reprodução da vida (Marx, 1998). Trata-se de um campo no qual se expressam valores, saberes, linguagens e formas simbólicas que resultam do trabalho humano e das relações sociais historicamente determinadas. Assim, a cultura reflete a base material da sociedade, bem como atua como força ativa na transformação social.

Sob essa ótica, observamos que a cibercultura emerge como expressão dessa mesma lógica, uma vez que as tecnologias digitais e as redes de comunicação produzem novos modos de interação, sociabilidade e significação. Assim, a cibercultura pode ser interpretada como desdobramento histórico da cultura na era das redes digitais, sobretudo, diante de uma sociedade hipersocial, no qual a integração da internet e das tecnologias esta presente nos mais diversos aspectos da vida dos indivíduos.

Em concordância, podemos verificar em Yanaze, Amaral e Santos (2024), que a cultura digital possibilita o acesso e a produção simultânea de informações, tornando os usuários tanto receptores quanto produtores de conteúdo. Essa dinâmica transforma as relações sociais e desafia o modelo tradicional de ensino, ainda baseado na comunicação unidirecional entre professor e alunos, gerando um conflito cultural no ambiente escolar.

Miranda (2021) aprofunda essas discussões apresentando que trata-se de uma sociedade composta por sujeitos em rede, marcada pela troca de informações e pela multiplicidade de interações e comunicação ocorridas em ritmo acelerado, superando barreiras temporais e geográficas que anteriormente se mostravam intransponíveis. Nesse cenário, a questão da inclusão digital, em especial da pessoa com deficiência, torna-se necessária, uma vez que o acesso às tecnologias e às redes de informação não se distribui de forma equitativa entre os diferentes grupos sociais. Considerando os termos da Sociedade em Rede, embora potencialmente aberta e interconectada, entendemos que reproduz e, em muitos casos, amplia desigualdades históricas.

Para Marcon (2023) a inclusão digital não deve ser compreendida apenas como acesso físico a dispositivos e à internet, bem como a utilização intrumental, mas como a capacidade crítica de apropriação das tecnologias para a produção de conhecimento, exercício da cidadania e transformação social. Diante disso, a educação digital passa a ser compreendida como um exercício de cidadania em rede, tendo em vista seu potencial de comunicação, educação e política, a produção de conhecimento e divulgação de cultura, promovendo transformações das próprias condições de existência.

A partir da literatura analisada, consideramos que as TDIC têm assumido papel cada vez mais relevante na organização das prátas educativas contemporâneas, estruturando os espaços de ensino como parte da cultura digital, uma vez que possibilitam novos modos de interação e produção de saberes. Entretanto, torna-se necessário enfrentar os desafios da inclusão digital, garantindo que todos os alunos tenham acesso e capacidades necessárias para utilizá-las de forma crítica e criativa.

Na concepção de Oliveira e Silva (2022), ensinar e aprender na sociedade cada vez mais digital exige mudanças nas práticas pedagógicas, para tanto, torna-se fundamental a intervenção docente permitindo com que os alunos tenham maior conhecimento com relação a utilização das TDIC e como instrumento de apropriação de conhecimento.

Em concordância com esses pressupostos, Vygotsky (2009) apresenta que a mediação entre os sujeitos é realizada em diferentes momentos da vida, pois é por meio do contato com o outro que se torna possível a apropriação dos conhecimentos e cultura historicamente produzidos pela humanidade.

A partir dessas reflexões, podemos verificar que o papel docente nessa prática pedagógica está voltado à orientação, consulta, facilitador, planejador e dinamizador de situações de aprendizagem ligado ao uso da TDIC no contexto escolar; não permitindo apenas de apropriação do conhecimento histórico, mas também na produção desse conhecimento, tendo em vista que envolve a criação de conhecimento por parte dos estudantes.

Diante dos avanços das Inteligências Artificiais (IA), devemos refletir também como o professor utiliza-se desse meio para desenvolver seu trabalho. Podemos reconhecer nas recomendações da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO) que: “(...) o uso de tecnologias de IA na educação deve aprimorar as capacidades humanas para o desenvolvimento sustentável e a colaboração eficaz entre humanos e máquinas na vida e em contextos de aprendizado e trabalho” (UNESCO, 2024, p. 18). Para tanto, cabe destacar que tais medidas exigem políticas públicas voltadas a regulação de seu uso no espaço escolar.

Conforme demonstrado no Estudo Internacional sobre Ensino e Aprendizagem (TALIS) da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico – OCDE, um em cada três professores já utilizaram a IA em sua atividade docente, mas há certa preocupação com relação ao plágio por parte de seus alunos (OCDE, 2025). Sete em cada 10 educadores se preocupam com está tecnologia, portanto, destaca a necessidade de uma intervenção pedagógica consciente e intecional, direcionada a práticas que respeitem o potencial ético e criativo desta TDIC.

Manjinski Jr. e Manjinski (2025) trataram de analisar em seus estudos as contribuições dos Ambientes Virtuais de Aprendizagem (AVA) e da IA Generativa. Segundo esses autores, essas TDIC vêm redefinindo o panorama educacional contemporâneo. Essas tecnologias ampliam as possibilidades de criação de experiências pedagógicas inovadoras, favorecendo processos de ensino mais dinâmicos, colaborativos e centrados no estudante.

Esse estudo (Manjinski Jr., & Manjinski, 2025) permite vislumbrar que o uso integrado desses recursos (TDIC e IA) poderá potencializar a personalização das aprendizagens voltadas a inclusão educacional, pois sugere adaptar às diferentes necessidades, ritmos e estilos de aprendizagem dos alunos, fortalecendo, assim, o compromisso da escola com uma educação de qualidade para todos.

Por fim, acrescentamos as contribuições do estudo desenvolvido por Ramos, Primon e Cirino (2021) destacando que a qualidade do ensino deve permear o atendimento a todos os alunos, respeitando a pluralidade de formas de aprendizado.

Assim, quando utilizadas com intencionalidade pedagógica, as ferramentas disponibilizadas pelas TDIC podem impulsionar a construção do conhecimento e promover a inclusão dos alunos público da educação especial nos contextos escolares, permitindo a participação e a aprendizagem significativa de todos os estudantes.

Para Vieira, Casagrande e Bianca (2024) é fundamental que os educadores reconheçam o potencial transformador das TDIC e as integrem de forma intencional e significativa às suas práticas pedagógicas.

Portanto, a mediação pedagógica deve estar comprometida com os principios da educação inclusiva agindo na diminuição das barreiras na utilização das TDIC, bem como no uso crítico dessas tecnologias. Diante do exposto, acreditamos que a proposta pedagógica exposta nesse trabalho esta em concordância com a perspectiva da educação inclusiva, uma vez possibilita que todos os estudantes participem da aula.

 

CONSIDERAÇÕES FINAIS

 

A análise da literatura evidenciou que embora as TDIC estejam presentes nas escolas há necessidade de refletir sobre o papel crítico da educação digital como parte dessa Sociedade em Rede. Assim, a inserção das TDIC no contexto escolar representa um campo necessário para a construção de práticas educativas inovadoras, colaborativas e críticas.

Conforme verificado nos trabalhos acadêmicos, a simples disponibilidade de dispositivos não garante a efetiva integração tecnológica, sendo necessária uma política educacional que contemple infraestrutura adequada, formação docente continuada e metodologias inovadoras que possibilitem o protagonismo discente.

Os estudos analisados permitiram considerar que a efetivação da educação digital inclusiva depende não apenas da disponibilização de recursos tecnológicos, mas também de condições estruturais, pedagógicas e políticas que garantam a apropriação crítica dessas tecnologias por professores e estudantes.

Por sua vez, a educação inclusiva deve considerar a diversidade de experiências e necessidades dos estudantes, garantindo que as TDIC sejam aplicadas como recursos que favoreçam a acessibilidade, a autonomia e a aprendizagem colaborativa. Assim, a inclusão digital se torna parte indissociável da inclusão educacional, tornando-se elemento fundamental para assegurar igualdade de oportunidades na sociedade contemporânea.

Considerando as complexas transformações sociais impulsionadas pelas redes digitais, torna-se necessário incentivar novos estudos que aprofundem a relação entre Sociedade em Rede, inclusão digital e práticas pedagógicas inovadoras. Pesquisas futuras podem contribuir para compreender como diferentes contextos escolares se apropriam das TDIC, quais barreiras ainda persistem na efetivação da inclusão digital e de que maneira a formação docente pode ser oferecida para responder às demandas de uma educação comprometida com as transformações sociais equitativas.

 

AGRADECIMENTOS

 

O presente trabalho foi realizado com apoio da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior – Brasil (CAPES). 

 

REFERÊNCIAS

 

Brasil (1996). Lei n.º 9.394, de 20 de dezembro de 1996. Estabelece as diretrizes e bases da educação nacional. Incluído pela Lei nº 14.533, 11 de janeiro de 2023- Institui a Política Nacional de Educação Digital. Diário Oficial da União: República Federativa do Brasil, Brasília, DF, 23 dez. https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2023-2026/2023/lei/ l14533.htm

 

Castells, M., & Cardoso, G. (2005). A sociedade em rede: do conhecimento à acção política. Lisboa: Imprensa Nacional.

 

Carvalho, H. P. de, et al. (2024). Aprendizagem significativa por meio das tecnologias digitais da informação e comunicação. In: Vieira, L. A. V., & Cirino, R. M. B. (org). Tecnologias Digitais da Informação e Comunicação: inovação e inclusão na educação. Paranaguá: Unespar.  

 

Gil, A. C. (2008). Métodos e técnicas de pesquisa social (6ª ed.). São Paulo: Atlas.

 

Manjinski Junior, G., Manjinski, E. (2025). Ensinar na Era Digital: o professor, a IA Generativa e o planejamento pedagógico consciente. Revista Teias de Conhecimento, 1(5), 229–240.

 

Marcon, K. et al. (2023). Processos de inclusão digital como espaços de pesquisa e reflexão crítica sobre a apropriação das TDIC na educação básica. In: Schulüzen Junior, K. et al. (org) Inovação tecnológica e tecnologia assistiva: contribuições das pesquisas em educação inclusiva no contexto do PROFEI – Linha 2: Inovação Tecnológica e Tecnologia Assistiva. Rio de Janeiro, RJ: Autografia.

 

Marx, K. (1998). A ideologia alemã. trad. Luís Claudio de Castro e Costa. São Paulo: Martins Fontes.

 

Miranda, A. L. (2021). Cibercultura e educação: pontos e contrapontos entre a visão de Pierre Lévy e David Lyon. Revista TransFormAção, 44(1), 45–68.

 

Oliveira, A. A. de, Silva, Y. F. de O. e (2022). Mediação pedagógica e tecnológica: conceitos e reflexões sobre o ensino na cultura digital. Revista Educação em Questão, 60(64). 

 

Organização Das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura - Unesco (2024). Guia para IA generativa na educação e na pesquisa. Paris: UNESCO.

 

Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico - OCDE (2025). Según la OCDE, la mayoría de los docentes están satisfechos con su trabajo. https://www.oecd.org/es/about/news/press-releases/2025/10/ most-teachers-happy-in-their-jobs-says-oecd.html.

 

Ramos, A. K. M. de O., Primon, J. A., & Cirino, R. M. B. (2021). As TDICS atreladas a mediação pedagógica no viés das práticas docentes: contribuições para a Educação Inclusiva. Revista Faculdade Sant’Ana em Revista, 5, 127–140.

 

Vieira, L. A., Casagrande, K., & Bianca, M. T. D. B. (2024). A mediação e a contribuição das Tecnologias Digitais da Comunicação e Informação para a Educação Inclusiva. Revista Ensino & Pesquisa, 22(2), 59–72, abr./ago.

 

Villela, A. P., Prado, J. V. do, & Borges, R. A. S. (2022). Tecnologias digitais nos processos de ensino aprendizagem e inclusão de alunos com deficiência.  Anais. CIESUD: 2022, São Carlos, set.

 

Vygotsky, L. S. (2009). A construção do pensamento e da linguagem (2ª ed.). Tradução Paulo Bezerra. São Paulo: Martins Fontes.

 

Yanaze, L. K. H., Amaral, F. S., & Santos, R. M. dos (2024). Cultura Digital e a Educação. In: Yanaze, L. K. H., & Santos, R. M. dos (orgs). Aprendizagem criativa na educação especial/inclusiva. Itapiranga : Schreiben.

 

Recebido: 23/02/2026

Aprovado: 15/07/2026



[1] Trabalho submetido ao III Simpósio Internacional do PROFEI (SIPROFEI) realizado pelo Programa de Mestrado Profissional em Educação Inclusiva da UNESP de Presidente Prudente em 2026.

[2] Mestre em Ensino e Mestrando em Educação Especial Inclusiva na UNESPAR - Campus Paranavaí. Professor de Educação Física da rede Municipal de Ensino de Rosana, SP, Brasil. E-mail: frans_ef@hotmail.com

[3] Doutora em Educação e Professora Adjunta do Colegiado de Pedagogia da Universidade Estadual do Paraná - campus de Paranavaí. Professora pesquisadora e membro do conselho de pesquisa e extensão da UniFateci e Membro do Comitê de Ética da Unespar, Paranavaí, PR, Brasil. E-mail: cassiadiaspereira@yahoo.com.br

[4] Doutora em Educação do Programa de Pós-Graduação da Universidade Federal de São Carlos - UFSCar - SP. Professora titular na Universidade Estadual do Paraná - Campus Paranavaí, PR, Brasil. Email: rosetms2000@yahoo.com.br