SAMBA DO ENVELHECER : A COMPOSI O MUSICAL COMO DISPOSITIVO DE PROMO O DA SA DE EM UM GRUPO DE PESSOAS IDOSAS

 

SAMBA OF AGING : MUSICAL COMPOSITION AS A HEALTH-PROMOTION TOOL IN A GROUP OF OLDER ADULTS

 

Mauro Pereira Amoroso Anastacio J nior[1]

Claudia Regina de Oliveira Zanini[2]

Olga Rodrigues de Moraes von Simson[3]

RESUMO

 

Este artigo tem como objetivo compreender a viv ncia da composi o musical terap utica em um grupo de pessoas idosas em processo de musicoterapia. O estudo fenomenol gico foi realizado com 12 participantes, com 60 anos ou mais, os quais participaram de 12 sess es semanais de musicoterapia, com dura o de 60 minutos cada. A partir do sexto encontro, teve in cio um processo de composi o musical terap utica, o qual foi investigado ao longo deste estudo. Os dados foram obtidos por meio da grava o e da transcri o dos udios dos encontros, bem como dos registros em di rio de campo. A an lise fundamentou-se nos procedimentos de redu o e compreens o das experi ncias manifestadas nas intera es verbais e sonoro-musicais. As transcri es e os registros foram submetidos a leituras reiteradas, das quais emergiram narrativas significativas para a compreens o do processo vivenciado pelos participantes. Todo o percurso anal tico foi guiado pela busca de compreens o da experi ncia de composi o musical terap utica. O artigo apresenta uma representa o visual do processo, como vivenciado pelos participantes, que indicou uma din mica n o linear, caracterizada por movimentos de avan o, retomada e reelabora o. A an lise da composi o final revelou temas relacionados independ ncia, aposentadoria, ao idadismo e ao desenvolvimento pessoal. O estudo discute a composi o musical terap utica em musicoterapia como uma estrat gia de promo o da sa de e de express o social, contribuindo para o aprimoramento de pr ticas voltadas constru o coletiva de sentidos sobre o envelhecer.

 

Palavras-chave: Promo o da Sa de. Musicoterapia. Pessoa Idosa.

 

ABSTRACT

 

This article aims to understand the lived experience of therapeutic music composition within a music therapy group of older adults. This phenomenological study was conducted with twelve participants aged 60 years and older, who attended twelve weekly 60-minute music therapy sessions. Beginning in the sixth session, a process of therapeutic music composition was introduced and subsequently explored throughout the study. Data was collected through audio recordings and transcriptions of the sessions, as well as field diary entries. The analysis was grounded in procedures of reduction and interpretation of experiences expressed through verbal and musical-sonic interactions. Repeated readings of the transcriptions and field notes allowed significant narratives to emerge, offering insights into the participants experiential process. The analytical path was guided by the search for an in-depth understanding of the experience of music composition. The article presents a visual representation of the process as lived by the participants, which revealed a nonlinear dynamic characterized by movements of progression, return, and reworking. Analysis of the final composition uncovered themes related to independence, retirement, ageism, and personal development. The study discusses therapeutic music composition as a strategy for health promotion and social expression in music therapy, contributing to the advancement of practices that support the collective construction of meaning around aging.

 

Keywords: Health Promotion. Music Therapy. Older Adults.

 

INTRODU O

At 2030, estima-se que uma em cada seis pessoas ter 60 anos ou mais, o que refor a a necessidade de pol ticas p blicas integradas e de ambientes f sicos e sociais acess veis que garantam autonomia, participa o comunit ria e inclus o das pessoas idosas (Organiza o Pan-Americana da Sa de [OPAS], 2023). Diante desse cen rio, o Relat rio de Linha de Base para a D cada do Envelhecimento Saud vel (2021 2030) destacou a urg ncia de a es que apoiem o envelhecimento ativo e melhorem a qualidade de vida dessa popula o (OPAS, 2023).

Ao desenvolver iniciativas voltadas s pessoas idosas, imprescind vel valorizar seus potenciais individuais e coletivos, reconhecendo que a pessoa idosa n o deve ser compreendida como espectadora passiva dessas a es, mas como agente ativo, com responsabilidade na condu o de sua participa o nos processos de vida comunit ria (Organiza o Mundial da Sa de [OMS], 2005). Destaca-se a import ncia de se promover oportunidades para pap is sociais significativos e relacionamentos rec procos, pois essas medidas visam criar comunidades mais adaptadas s necessidades dos indiv duos (OPAS, 2022).

Em conson ncia com esses princ pios, a promo o da sa de compreendida como um processo que apoia a capacita o das comunidades para o aprimoramento de sua qualidade de vida e sa de, favorecendo o protagonismo no controle de seus pr prios recursos (OMS, 1986). Tal processo requer que indiv duos e grupos reconhe am suas necessidades, fortale am a autonomia coletiva e atuem de forma ativa na tomada de decis es que impactam suas vidas. Para isso, essencial o desenvolvimento de estrat gias que estimulem a corresponsabilidade, a solidariedade e a coopera o. Nesse sentido, a promo o da sa de abrange a cria o de ambientes favor veis, o fortalecimento dos v nculos comunit rios e a valoriza o dos recursos j existentes na coletividade.

Na promo o da sa de ao longo da longevidade, a Musicoterapia pode ser inserida como forma de fomentar a participa o social, o protagonismo e o empoderamento entre pessoas idosas, com foco nas potencialidades. A pr tica, conduzida por um musicoterapeuta credenciado, pode proporcionar um suporte de car ter preventivo-social e estabelecer v nculos, por meio do compartilhamento de experi ncias em grupo. A interven o musicoterap utica personalizada, facilitando o resgate da mem ria musical e o contato com experi ncias pessoais por meio de propostas criativas que valorizam o indiv duo para si mesmo, promovendo, assim, a manuten o da mem ria individual e coletiva (Souza, 2011).

A pr tica da musicoterapia configura-se como promotora de sa de ao apoiar processos de express o subjetiva, fortalecimento de v nculos e participa o social. Ao estimular o engajamento em experi ncias musicais, as interven es podem contribuir para o bem-estar biopsicossocial, refor ando sentimentos de autonomia, pertencimento e autoestima. Os benef cios s o ampliados quando o processo conduzido de forma participativa, considerando as trajet rias de vida e as expectativas dos indiv duos, o que favorece o protagonismo da pessoa idosa em seu pr prio cuidado. Nesse sentido, a musicoterapia alinha-se s diretrizes do cuidado centrado na pessoa, articulando-se com pol ticas p blicas e com a no o de cuidados integrados (Anastacio & Zanini, 2025).

O estudo de Diaz Abrahan et al. (2019) investigou os efeitos da musicoterapia sobre a qualidade de vida entre pessoas idosas, avaliando a efic cia da pr tica na promo o do envelhecimento saud vel. A pesquisa envolveu 30 participantes, divididos em um grupo experimental e um grupo controle. Os encontros do grupo experimental inclu ram improvisa o livre, trabalho com can es e atividades com percuss o. Os resultados do Invent rio de Qualidade de Vida (IQoL) indicaram que o grupo experimental obteve escores mais altos na qualidade de vida total e nos subcomponentes: religi o, recrea o, criatividade e amor. Os autores conclu ram que a pr tica da musicoterapia ofereceu benef cios por meio da integra o social e da express o emocional (Diaz Abrahan et al., 2019).

Em outro estudo, realizado com mulheres idosas institucionalizadas, identificou-se que os encontros de musicoterapia incentivaram a express o de mem rias autobiogr ficas, sobretudo lembran as da juventude e experi ncias familiares. A articula o entre temporalidade emocional e cronol gica emergiu como eixo central das viv ncias, evocando mem rias afetivas associadas a v nculos, rotinas e mudan as decorrentes do envelhecimento. Os resultados do estudo sugeriram que o processo contribuiu para fortalecer a autopercep o e a autoestima, indicando o potencial da musicoterapia para promover sa de em contextos de institucionaliza o (Bollini & Santos, 2020).

Al m do canto, da improvisa o musical e da escuta receptiva, a composi o tamb m constitui um dos m todos empregados na pr tica musicoterap utica. Esse m todo pode ser aplicado em contextos individuais ou grupais, com diferentes objetivos, tais como promover a express o de sentimentos, facilitar o compartilhamento de experi ncias e apoiar a explora o de temas cl nicos (Bruscia, 2014). Para a aplica o de processos de composi o musical terap utica, os musicoterapeutas s o os profissionais mais capacitados para prevenir poss veis contraindica es e minimizar riscos associados, conduzindo a pr tica de forma tica e mais segura (Silverman, 2025).

O estudo de Baker e Ballantyne (2013) investigou os efeitos da composi o de can es em um grupo de pessoas idosas. Para tanto, desenvolveu-se um programa no qual os participantes foram incentivados a compartilhar experi ncias pessoais e mem rias, transformando-as em letras e melodias coletivamente elaboradas. O estudo qualitativo coletou dados incluindo entrevistas, v deos, di rio de campo e as letras das composi es. Os resultados indicaram que a participa o promoveu benef cios como o aumento do bem-estar emocional e fortalecimento da autoestima. Os participantes relataram sentimentos de orgulho, pertencimento e renova o do senso de prop sito (Baker & Ballantyne, 2013).

Segundo Baker (2014), quando a composi o musical terap utica realizada em grupo, o processo moldado por fatores psicossociais complexos que emergem das intera es entre os participantes. Nessa perspectiva, a diversidade de pontos de vista, bem como eventuais diverg ncias, influenciam a din mica grupal e a forma como cada indiv duo participa do processo. Assim, a qualidade das rela es estabelecidas e a ado o de abordagens terap uticas adequadas s o importantes para a promo o de efeitos terap uticos. Considerar a pluralidade cultural dos envolvidos fundamental para alcan ar objetivos que podem incluir a constru o de significado e o engajamento social (Baker, 2014).

Para que esses objetivos sejam alcan ados, importante reconhecer e enfrentar barreiras que podem afetar o bem-estar dos participantes. Entre essas barreiras, destaca-se o idadismo, entendido como a manifesta o de estere tipos, preconceitos e pr ticas discriminat rias baseadas na idade. O termo descreve um fen meno que compromete a vida das pessoas idosas em m ltiplas dimens es, afetando o acesso a cuidados adequados e a forma como as pessoas idosas s o percebidas socialmente. O idadismo favorece o isolamento social e a solid o e pode se manifestar por meio de rejei o social, autodesvaloriza o ou barreiras estruturais (OPAS, 2022).

O idadismo varia em rela o ao contexto, pois diferentes culturas definem a velhice, a meia-idade e a juventude de distintas maneiras, assim como as normas e expectativas associadas a cada etapa da vida. Os ambientes influenciam o modo como envelhecemos, e a soma de iniquidades determina o acesso sa de e educa o ao longo da vida, afetando nossa condi o em diferentes idades. Entre os fatores que aumentam o risco de pessoas serem v timas de idadismo est o ter mais idade e viver em pa ses com menor expectativa de vida saud vel (OPAS, 2022).

Apesar dos avan os nas pesquisas sobre os benef cios da musicoterapia para a popula o idosa, pouco foi explorado sobre como pessoas idosas independentes constroem significados e reelaboram suas experi ncias ao longo de processos criativos de composi o musical terap utica, e de que forma essa viv ncia pode favorecer a diminui o do idadismo e a express o simb lica. Essa lacuna sugere a import ncia de estudos que busquem explorar esse m todo como um processo de reconstru o subjetiva e social. Tal compreens o pode oferecer fundamentos para a amplia o de estrat gias voltadas valoriza o da pessoa idosa como agente protagonista e participante ativo de seu processo de vida.

Com base nessas premissas, este estudo teve como objetivo investigar a aplica o do m todo de composi o musical em musicoterapia com um grupo de pessoas idosas no contexto de um projeto de extens o universit ria. Buscou-se compreender as etapas do processo coletivo de composi o musical terap utica tal qual vivenciado pelo grupo; identificar os principais temas que emergiram espontaneamente na can o a partir das contribui es dos participantes; e analisar a obra musical resultante como produto simb lico desse percurso.

 

MATERIAIS E M TODOS

Este estudo qualitativo de abordagem fenomenol gica constitui um recorte de uma pesquisa de doutorado mais abrangente, conduzida pelo autor principal, com aprova o do Comit de tica em Pesquisa da institui o qual o primeiro autor afiliado (Parecer n 5.598.557), sob o Certificado de Apresenta o para Aprecia o tica n 59478422.0.0000.5404, aprovado em 23 de agosto de 2022.

Delineamento do estudo

A pesquisa foi orientada por uma abordagem fenomenol gica de natureza interpretativa, com base em Creswell (2013). Essa escolha justifica-se pela inten o de descrever e compreender a experi ncia vivida (composi o musical terap utica) a partir da perspectiva dos pr prios participantes, valorizando os sentidos emergentes do processo grupal e a forma como eles se manifestaram nas intera es verbais e sonoro-musicais.

A ado o dessa abordagem deve-se ao fato de que o fen meno investigado envolve dimens es subjetivas, relacionais e simb licas, n o redut veis mensura o objetiva. A fenomenologia, nesse sentido, oferece um caminho epistemol gico que possibilita acessar a ess ncia da atividade. Nesse sentido, a ado o dessa abordagem justifica-se pela natureza do fen meno investigado, pois o estudo prop s-se a compreender a experi ncia vivenciada pelos participantes no processo, valorizando a dimens o subjetiva.

O pesquisador adotou uma postura fenomenol gica sustentada pela epokh (suspens o dos ju zos pr vios) e pela redu o fenomenol gica, procurando descrever as experi ncias tal como se apresentaram, antes de qualquer interpreta o te rica. Esse movimento foi complementado por uma etapa hermen utica, na qual se buscou compreender o significado dos discursos e express es musicais a partir do contexto vivencial dos participantes, preservando a coer ncia entre fala, gesto e som.

Recrutamento e Participantes

Em julho de 2022 foi realizada a divulga o da oficina de musicoterapia a ser oferecida em um programa de extens o universit ria. O programa oferece atividades para pessoas com 50 anos ou mais, desde 2015. A divulga o foi realizada por meio do portal online do programa, no qual os participantes realizaram suas inscri es. Todos os encontros foram conduzidos por um musicoterapeuta credenciado, primeiro autor deste estudo. O programa de extens o ofereceu suporte no recrutamento e nos encontros semanais, al m do espa o e dos materiais.

O grupo foi composto por 12 indiv duos, todos com idade igual ou superior a 60 anos, conforme os crit rios de inclus o estabelecidos para a participa o: a) autorrelatar a capacidade de realizar atividades da vida di ria e tomar decis es sem necessidade de assist ncia significativa; b) ter completado o esquema vacinal contra a covid-19; c) apresentar disponibilidade para participa o nos encontros semanais de musicoterapia.

Os dados sociodemogr ficos foram coletados por meio de uma ficha elaborada pelos pesquisadores, aplicada individualmente antes do in cio dos encontros. O instrumento incluiu informa es referentes idade, n vel de escolaridade, renda familiar aproximada e autopercep o da condi o socioecon mica, esta ltima avaliada por meio de uma escala de cinco pontos (p ssima, m , nem boa nem m , boa e muito boa). Tamb m foram coletados dados sobre estrutura familiar, presen a de doen as cr nicas e participa o em outras atividades regulares. As informa es foram autodeclaradas.

A maioria dos participantes era do sexo feminino (10 mulheres e 2 homens), com idades variando entre 60 e 93 anos. Todos possu am escolaridade igual ou superior ao Ensino M dio, sendo que sete deles tinham n vel superior completo ou p s-gradua o. A renda familiar declarada situava-se entre R$ 4.000,00 e R$ 15.000,00 mensais, sendo autodefinida por eles como boa ou intermedi ria. Nenhum dos participantes relatou condi es de sa de incapacitantes que pudessem comprometer a participa o no projeto.

Onze participantes declararam-se como aposentados e apresentaram trajet rias profissionais diversas, incluindo reas como educa o, m sica, sa de, tecnologia, com rcio e atendimento ao p blico. Uma participante n o era aposentada, desempenhando fun es relacionadas a servi os dom sticos e cuidados familiares. Todos os participantes relataram envolvimento atual em m ltiplas atividades de lazer, autocuidado e aprendizado, como gin stica, yoga, oficinas tem ticas e canto coral. Todos apresentaram algum hist rico de v nculo com a m sica ao longo da vida, seja no ambiente familiar, escolar ou comunit rio.

Procedimentos do Processo de Musicoterapia

O processo ocorreu no segundo semestre de 2022, ao longo de 12 encontros semanais com dura o de 60 minutos cada. As interven es foram fundamentadas em varia es dos m todos musicoterap uticos descritos por Bruscia (2014), incluindo o canto, a escuta de repert rio musical significativo e a composi o musical terap utica. No decorrer dos encontros, os participantes foram convidados a compartilhar can es significativas de suas trajet rias de vida, com os objetivos de resgatar mem rias afetivas, fortalecer v nculos grupais e apoiar reflex es cr ticas sobre temas relevantes a eles. A condu o priorizou a constru o coletiva de significados, promovendo um espa o de express o partilhada.

A partir do sexto encontro a composi o musical terap utica foi proposta pelo musicoterapeuta pesquisador. O musicoterapeuta optou por introduzir a proposta no sexto encontro, pois os participantes j demonstravam ter estabelecido v nculos interpessoais que poderiam favorecer a cria o coletiva. O processo foi conduzido de forma colaborativa, integrando elementos expressos nos encontros anteriores, como as can es evocadas pelo grupo. O musicoterapeuta atuou como facilitador, contribuindo para a elabora o mel dica, harm nica e r tmica, respeitando as expectativas est ticas e os conte dos simb licos apresentados pelos participantes.

Ao final do processo, a composi o resultante foi gravada em v deo pelos participantes, com o objetivo de ser publicada em plataforma digital (YouTube), ampliando sua circula o e alcance. Ap s o encerramento dos 12 encontros, o grupo realizou uma apresenta o p blica da can o. Este processo de composi o musical terap utica e seus desdobramentos em termos expressivos, relacionais e sociais ser o discutidos na se o de resultados deste artigo, com nfase nas din micas e nos temas abordados ao longo da experi ncia.

Coleta de dados

A coleta de dados ocorreu por meio de registros em udio dos encontros de musicoterapia e do di rio de campo do pesquisador. Os encontros foram gravados com consentimento dos participantes, e os dados foram organizados cronologicamente, para acompanhar a evolu o do processo de composi o musical terap utica. Tamb m foram coletados alguns materiais intermedi rios, como rascunhos de letra e as sugest es expressas pelos participantes durante os encontros.

An lise dos dados

A an lise dos dados foi realizada em duas frentes complementares: (1) a explora o do processo de composi o musical terap utica, iniciado a partir do sexto encontro de musicoterapia, com base nos registros em udio e nos di rios de campo; e (2) a an lise da letra e da m sica da can o final, considerada como uma s ntese simb lica da experi ncia grupal. Para a compreens o do processo, foram reconstru dos os movimentos ocorridos ao longo dos encontros, incluindo os momentos de escuta, discuss o, elabora o e reelabora o de ideias musicais e verbais. Os rascunhos da letra da composi o musical terap utica e as sugest es expressas pelos participantes contribu ram para a maior compreens o das din micas do processo.

Tratou-se de um procedimento anal tico qualitativo de abordagem fenomenol gica, considerando os princ pios da interpreta o da experi ncia vivida e da redu o fenomenol gica (Creswell, 2013). A an lise foi guiada pela triangula o entre as fontes: os registros sonoros dos encontros, suas respectivas transcri es e os registros em di rio de campo elaborados pelo pesquisador durante e ap s os encontros. A escuta dos udios teve papel para captar nuances expressivas n o verbais (entona es, pausas, risos, melodias espont neas), compondo a escuta das manifesta es do grupo. As transcri es foram lidas de forma reiterada, permitindo a identifica o de narrativas relacionadas s viv ncias expressas ao longo do processo de composi o musical terap utica.

As narrativas foram organizadas de modo a descrever o processo de cria o da can o, indicando sua din mica e seu desenvolvimento. A letra e a estrutura musical da composi o final foram analisadas com base na identifica o dos temas centrais elaborados pelos participantes. A an lise da letra teve como prop sito compreender os sentidos constru dos ao longo do processo criativo. A melodia, o ritmo e os elementos estil sticos escolhidos tamb m foram explorados como meios de express o simb lica e emocional.

O primeiro autor deste artigo conduziu o processo terap utico e as an lises, reconhecendo que suas experi ncias pr vias, pr ticas profissionais e trajet ria de estudos influenciaram a condu o da pr tica e a interpreta o dos dados. Essa reflexividade coerente com os pressupostos da pesquisa qualitativa, que reconhece a implica o do pesquisador como parte integrante da produ o do conhecimento. Buscou-se manter uma postura pautada na escuta e na valoriza o das narrativas singulares, garantindo que as interpreta es emergissem do material emp rico e n o de expectativas pr vias. As demais autoras do estudo ofereceram supervis o nas etapas de an lise, desenvolvimento da escrita e revis o do manuscrito, contribuindo para minimizar os vieses decorrentes da dupla fun o de terapeuta e pesquisador.

Procedimento anal tico

A an lise do processo seguiu tr s momentos articulados:

 

1.         Organiza o Leitura e escuta repetida dos registros ( udios, transcri es e di rio de campo) para captar os conte dos das intera es grupais.

2.         Redu o Identifica o e destaque das narrativas dos participantes diretamente relacionadas viv ncia da composi o musical terap utica, suspendendo interpreta es externas e focando no fen meno.

3.         Compreens o/Interpreta o Reorganiza o das narrativas em temas que expressam os sentidos compartilhados, a cria o coletiva e a composi o final. Essa etapa incluiu o movimento de retorno ao material emp rico e ao contexto do grupo, visando uma interpreta o situada e coerente com as vozes dos participantes.

 

A an lise da letra e da estrutura musical da composi o foi conduzida em conson ncia com os mesmos princ pios de identifica o tem tica. A letra da can o foi examinada a partir dos temas centrais elaborados pelos participantes e dos significados atribu dos. De forma complementar, a an lise da estrutura musical considerou elementos como o desenho mel dico, o g nero musical escolhido e os recursos estil sticos empregados, compreendendo-os como express es simb licas que refor am e ampliam os sentidos presentes na letra.

RESULTADOS

A an lise dos dados possibilitou a constru o de um modelo visual que ilustra o processo da composi o musical terap utica, como vivenciado pelos participantes. As etapas foram organizadas com base nos dados, explorando o movimento experiencial ao longo dos encontros, considerando as dimens es expressivas, relacionais e simb licas, compreendendo a constru o e os modos como os participantes se engajaram na elabora o de sentidos sobre o envelhecimento. Algumas falas dos participantes foram incorporadas na forma de cita es diretas, com oculta o da identidade.

Din mica processual da composi o musical terap utica

A constru o da can o ocorreu por meio de um processo criativo coletivo, caracterizado por movimentos cont nuos de avan o, retomada e reelabora o. N o se tratou de um percurso linear, mas de uma din mica na qual os elementos surgiam, eram transformados e revisitados ao longo dos encontros.

Repert rios musicais ressignificados

O sexto encontro iniciou com o compartilhamento de can es que os participantes haviam previamente associado a temas relacionados ao ciclo da vida e ao envelhecimento. A partir da escuta e da discuss o dessas can es, foi poss vel abrir caminho para a constru o coletiva da composi o musical terap utica. Nesta etapa, os participantes mencionaram can es como Tocando em Frente (1990), composta por Almir Sater e Renato Teixeira, e Preciso Saber Viver (1968), de autoria de Roberto Carlos e Erasmo Carlos. Esse momento foi introduzido pelo musicoterapeuta como fun o de disparador para as reflex es que se seguiram.

Diante das conex es estabelecidas com o repert rio musical, o musicoterapeuta prop s a constru o de uma nova can o, enfatizando seu car ter colaborativo. O musicoterapeuta atuou como facilitador das trocas, estimulando a express o de ideias e sentimentos que emergiam das viv ncias compartilhadas, e ofereceu suporte t cnico nos aspectos mel dicos, harm nicos e r tmicos.

Levantamento tem tico a partir de uma pergunta geradora

As discuss es foram estimuladas por perguntas como: O que essa can o precisa dizer? . Isso desencadeou reflex es e narrativas pessoais que foram gradualmente organizadas em torno de eixos tem ticos como amizade, autonomia, idadismo, resili ncia e pertencimento social. Esses temas n o permaneceram fixos, mas foram revisitados, aprofundados e ressignificados ao longo do processo, como sugerem as narrativas a seguir:

 

-          interessante inserir que queremos ser vistos e respeitados. Fazermos o que queremos fazer (P1);

-          Tem que falar sobre a uni o, sobre o coletivo (P2);

-          sobre fazer o que gosta sem ser obrigado e sem ser manipulado (P3);

-          Eu dependo de nibus, e s vezes entro no nibus e est cheio de jovens, alguns nos olham e fingem estar dormindo, pensando que eles est o trabalhando e eu n o (P4).

Escolha do g nero musical e sua resson ncia simb lica

De acordo com os participantes, o samba, enquanto g nero musical, amplamente reconhecido como express o popular e elemento constitutivo da identidade coletiva. Por essa raz o, foi considerado o estilo mais adequado para traduzir os conte dos sens veis que o grupo desejava comunicar. Assim, a escolha do samba orientou o desenvolvimento da composi o musical terap utica.

Constru o e reconstru o da letra

Com base nas contribui es verbais dos participantes, o musicoterapeuta esbo ava vers es da letra, que circulavam como um artefato aberto interven o coletiva. A cada encontro, os trechos da can o foram retomados, modificados, expandidos ou reescritos, conforme novas ideias e experi ncias vinham tona. A can o foi moldada por meio de um processo dial gico, sustentado pela escuta e pela elabora o de sentidos e significados. A vers o final resultou da converg ncia entre as vozes do grupo e foi considerada representativa das dimens es discutidas ao longo do processo.

As discuss es abordaram linguagem inclusiva, representatividade e coer ncia sem ntica com as viv ncias pessoais. A narrativa a seguir exemplifica como as intera es se manifestaram durante o delineamento da letra final, ilustrando a negocia o coletiva de sentidos. Nesse momento, um dos integrantes expressou sua discord ncia em rela o ao uso do termo adulto em um dos versos, enfatizando que preferia ser identificado como idoso . O epis dio diz respeito representa o identit ria e escolha das palavras.

 

Na letra est adulto , eu n o sou adulto, tem que mudar a letra e colocar idoso , ou adulto e idoso (P5).

Grava o e apresenta o p blica

Os participantes realizaram a grava o da composi o no espa o dos encontros, utilizando os recursos dispon veis, incluindo a mesa de suporte, c mera do celular e instrumentos musicais de percuss o. Posteriormente, a can o foi apresentada publicamente durante um evento realizado em um teatro da cidade de Campinas (SP). Na ocasi o, a letra do samba foi distribu da ao p blico presente, que foi convidado a cantar junto com o grupo. Essa a o teve como prop sito ampliar o alcance da produ o, conferindo visibilidade experi ncia do processo musicoterap utico vivenciado.

 

 

 

 

 

 

 

 

Figura 1 - Modelo do processo de composi o musical terap utica

 

 

Fonte: Os autores, 2025.

 

A Figura 1 apresenta um modelo inspirado no processo terap utico como vivenciado, representando os movimentos envolvidos na composi o. O modelo n o linear ou prescritivo, mas trata-se de um percurso fluido e recursivo, em que os momentos de escuta, partilha, cria o e revis o se entrela aram continuamente ao longo dos encontros. Este modelo pode oferecer subs dios para a pr tica em musicoterapia, ao destacar a import ncia da discuss o, da escuta, da coautoria e do pertencimento est tico-cultural na constru o de narrativas. Para a gerontologia, rea que investiga o processo de envelhecimento, esse modelo pode contribuir com reflex es sobre oportunidades de processos expressivos no reconhecimento e na representa o social de pessoas idosas por meio da arte e da cria o compartilhada.

 

An lise do Samba do Envelhecer

A composi o final estruturou-se em cinco estrofes, mantendo uma forma musical recorrente ao longo da can o. A seguir, apresenta-se a letra completa da obra final:

 

Samba do Envelhecer

Grupo de Musicoterapia

 

Tem que estar sempre vivendo, nada de estacionar

Todo adulto ou idoso pode estudar, rezar e namorar

Faz tempo que eu n o sou crian a, seu cuidado pode atrapalhar

H muito tempo eu trabalho, se eu me aposentar, quero aproveitar (repete)

 

Tem amigos, fam lia e vizinho, querendo saber se estou bem

Quando eu trabalhava pesado, isso n o incomodava ningu m

N o v na conversa do outro, n o deixe isso te atrapalhar

Hoje eu quero qualidade e n o quantidade a me rodear (repete)

 

Muita gente est se retraindo, chegando at a adoecer

A raz o disso o idadismo , precisamos falar pra saber

importante fazer o que gosta, pra poder se desenvolver

Precisamos mudar a cultura que diz que o idoso n o pode fazer (repete)

 

O bom est na simplicidade, em poder cultivar uni o

Paci ncia pra qualquer idade, com respeito se traz compaix o

Empatia pra toda cidade, no nibus ou no avi o

Se um tem mais dificuldade, o outro precisa prestar aten o (repete)

 

Tem idoso morando sozinho, com a fam lia ou na Institui o

O bom mesmo sentir alegria, ningu m quer sentir a solid o

Fazer parte da sociedade, vivendo na integra o

Com mais ou com menos idade, todos fazem parte da popula o (repete)

A an lise da letra da composi o musical terap utica permitiu a identifica o de eixos tem ticos acerca do envelhecimento e de quest es sociais a ele associadas. Com base nessa an lise, foi elaborado o Quadro 1, que sistematiza os principais temas identificados, acompanhados de uma breve descri o e de trechos representativos extra dos da composi o.

 

Quadro 1 - Temas, descri es anal ticas e trechos da composi o

 

Tema

Descri o anal tica

Trechos da composi o

Autonomia e Independ ncia

Valorizou-se a autonomia e a independ ncia, destacando-se os efeitos negativos de pr ticas superprotetoras.

Todo adulto ou idoso pode estudar, rezar e namorar.


Faz tempo que eu n o sou crian a, seu cuidado pode atrapalhar.

Aposentadoria

A aposentadoria foi apresentada como possibilidade de escolha e associada a experi ncias prazerosas.

H muito tempo eu trabalho, se eu me aposentar, quero aproveitar.

Idadismo

Foram mencionados efeitos adversos do idadismo sobre a sa de e o bem-estar, com convoca o ao enfrentamento coletivo e mudan a cultural.

Muita gente est se retraindo, chegando at a adoecer. A raz o disso o idadismo, precisamos falar pra saber.


Precisamos mudar a cultura que diz que o idoso n o pode fazer.

Redefini o de prioridades

Ressignifica o das prioridades na velhice, orientadas por v nculos afetivos, intimidade emocional e qualidade das rela es interpessoais.

Hoje eu quero qualidade e n o quantidade a me rodear.

Inclus o e empatia

Enfatizou a import ncia da escuta ativa e da empatia como fundamentos da conviv ncia e do reconhecimento da diversidade de necessidades.

Se um tem mais dificuldade, o outro precisa prestar aten o.


Paci ncia pra qualquer idade.

Conv vio social e pertencimento

Destacou-se a centralidade da integra o social, do sentimento de pertencimento e da vida comunit ria para a promo o da sa de e da qualidade de vida.

Fazer parte da sociedade, vivendo na integra o, com mais ou com menos idade, todos fazem parte da popula o.


Ningu m quer sentir a solid o.

Fonte: Os autores, 2025.

 

A partir da compreens o dos significados expressos na letra, tornou-se poss vel examinar como esses conte dos se articulam aos elementos formais da m sica. A an lise da estrutura musical da can o permitiu observar de que maneira aspectos mel dicos, harm nicos e r tmicos refor am ou dialogam com as tem ticas abordadas na composi o musical terap utica.

A composi o foi elaborada em tonalidade de d maior, com uma melodia inspirada em sambas j familiares ao grupo, incluindo obras dos compositores Adoniran Barbosa e Paulinho da Viola. A can o apresenta repeti o entre as estrofes, com varia es pontuais. O ritmo marcado por s ncopes, e a extens o vocal abrange uma oitava. A estrutura mel dica incorpora intervalos de segunda menor e maior, ter a menor e maior, quarta justa e sexta menor. A primeira estrofe possui uma leve diferencia o mel dica em rela o s demais, que seguem a melodia-base apresentada na Figura 2.

 

Figura 2 - Partitura do Samba do Envelhecer

Fonte: Os autores, 2024.

 

Ao ser analisada a rela o entre os conte dos verbais da composi o e a sua estrutura mel dica, percebe-se um padr o recorrente. O in cio de cada estrofe contextualiza uma situa o-problema ou uma viv ncia cotidiana. Nesses trechos, a melodia tende a se desenvolver em graus conjuntos e intervalos pr ximos, conferindo um car ter introspectivo e contido narrativa musical, como se nota em versos como: Tem amigos, fam lia e vizinho, sempre querendo saber se estou bem / Quando eu trabalhava pesado, isso n o incomodava ningu m .

Na segunda parte de cada estrofe, a letra expressa sugest es, aspira es ou desejos voltados ao presente e ao futuro. Nessa parte, a melodia se expande com saltos mel dicos mais amplos, chegando a intervalos de at uma oitava (de d a d ), como ocorre em: "N o v na conversa do outro, n o deixe isso te atrapalhar / Hoje eu quero qualidade e n o quantidade a me rodear". Essa abertura intervalar pode ser considerada um recurso expressivo que simboliza musicalmente a busca por transforma o da experi ncia, marcando uma oposi o entre a descri o do presente e o anseio por mudan a.

DISCUSS O

Este estudo explorou a experi ncia de composi o musical em musicoterapia com um grupo de pessoas idosas no contexto de um programa de extens o universit ria. As express es, reveladas nas letras, apreenderam desafios e pot ncias vivenciadas na velhice, a valoriza o da liberdade de escolha, o enfrentamento de estigmas relacionados idade, a ressignifica o de prioridades e a import ncia dos v nculos sociais. O produto final constituiu-se como uma s ntese do processo coletivo em musicoterapia, promovendo a constru o de sentidos compartilhados.

O musicoterapeuta trouxe temas abordados anteriormente com base nas can es compartilhadas pelos participantes, com o objetivo de facilitar o desencadear dos conte dos abordados na composi o. Essa etapa favoreceu as reflex es e os di logos entre os indiv duos, que expressaram suas opini es sobre diferentes assuntos. O fato de o processo composicional ter se desenvolvido ao longo de algumas semanas pode ter favorecido a matura o das ideias, permitindo que os participantes revisitassem conte dos discutidos anteriormente e incorporassem novos temas can o, de forma progressiva e reflexiva.

No in cio do processo, os participantes optaram pelo samba como g nero musical, justificando sua escolha pelo car ter popular e pela forte vincula o do samba identidade coletiva brasileira. O samba reconhecido pela Unesco como Patrim nio Cultural Imaterial da Humanidade, com ra zes na di spora africana e na miscigena o que marcaram a forma o cultural do Brasil, consolidando-se como s mbolo de resist ncia, encontro e preserva o da mem ria coletiva. Historicamente associado luta contra a opress o e celebra o da vida em comunidade, o samba integra elementos da tradi o e da modernidade (da Silva et al., 2025). Nesse sentido, a escolha do grupo pode ser relacionada ao reconhecimento do pertencimento cultural, express o de identidade e valoriza o da mem ria social no contexto da musicoterapia.

A autonomia foi explorada na composi o de diferentes maneiras, todas intimamente ligadas s possibilidades de ag ncia, escolha e express o individual. Esse conceito remete capacidade de tomar decis es conscientes, exercer controle sobre as pr prias a es e manifestar ag ncia sobre a pr pria vida, conforme destacado por B lenuis et al. (2019). Durante o processo criativo, os participantes tiveram a oportunidade de refletir sobre suas prefer ncias, valores e experi ncias pessoais, incorporando essas escolhas na letra da can o. Nela, enfatizaram a relev ncia de agir de acordo com suas pr prias vontades e de mobilizar seus recursos internos, revelando uma compreens o da autonomia como um exerc cio de protagonismo.

A tem tica da independ ncia, entendida como a capacidade de realizar atividades cotidianas sem a necessidade de assist ncia, tamb m emergiu no conte do da can o. Um exemplo representativo pode ser observado no trecho: Faz tempo que eu n o sou crian a, seu cuidado pode atrapalhar , que reflete as discuss es sobre os efeitos da interfer ncia familiar e social na independ ncia da pessoa idosa. Tais interfer ncias podem impactar no desenvolvimento da depend ncia aprendida, caracterizada pela ado o de comportamentos dependentes, que podem abranger dimens es f sicas, sociais, econ micas e psicol gicas (Vilela, 2018). Esse fen meno frequentemente alimentado por atitudes superprotetoras ou desconsidera es quanto capacidade funcional da pessoa idosa, e a reflex o sobre o tema contribui para o seu enfrentamento.

A composi o musical destacou a valoriza o das escolhas e investimentos pessoais guiados por interesses e emo es, enfatizando a import ncia de realizar atividades que proporcionem satisfa o. Essa perspectiva aparece, por exemplo, no trecho: importante fazer o que gosta, pra poder se desenvolver . Tais conte dos podem ser discutidos luz da perspectiva do desenvolvimento ao longo da vida, ou life span, que concebe o desenvolvimento humano como um processo cont nuo, multidimensional e din mico, que se estende por todas as fases da vida (Baltes & Baltes, 1990; Kassulke & Soares, 2022). Essa perspectiva reconhece que o envelhecimento envolve potencialidades, aprendizado e constru o de sentido, em conson ncia com os temas expressos na can o.

Com base na perspectiva do desenvolvimento ao longo da vida, Laura Carstensen (1992) prop s a Teoria da Seletividade Socioemocional. Essa teoria sugere que as pessoas priorizam rela es e experi ncias emocionalmente significativas diante da percep o do tempo como limitado, visando maximiza o do bem-estar subjetivo. Pesquisas baseadas nessa teoria t m contribu do para compreender as prefer ncias, as redes sociais e as experi ncias emocionais das pessoas, al m de revelar o chamado efeito da positividade no processamento cognitivo (Carstensen, 2021). Esse direcionamento seletivo tamb m emergiu na can o, como ilustrado no verso: Hoje eu quero qualidade e n o quantidade a me rodear , que expressa a valoriza o das intera es e das experi ncias afetivas mais significativas na velhice.

Os participantes tamb m enfatizaram que o idadismo impacta negativamente a sa de da pessoa idosa, e abordaram a import ncia da conscientiza o sobre o tema. O idadismo pode limitar a participa o social, especialmente quando as pessoas idosas internalizam cren as limitantes, afetando negativamente sua autoimagem, seu potencial, seus desejos pessoais, suas habilidades e suas contribui es (OPAS, 2022). Isso foi representado em trechos como: Muita gente est se retraindo, chegando at a adoecer , sinalizando o impacto subjetivo dessas experi ncias no cotidiano e na funcionalidade.

Durante o processo, notou-se que fen menos e fatores socioculturais, bem como as perspectivas individuais, influenciaram diretamente a din mica e os conte dos da interven o. Dependendo do contexto, essas pr ticas podem se mostrar culturalmente inadequadas ou pouco significativas para determinados grupos (Baker, 2014), especialmente quando a interven o utiliza estilos musicais, repert rios ou aborda temas que n o fazem parte da experi ncia cotidiana dos participantes, dificultando seu engajamento e a conex o emocional com a atividade.

A composi o musical se mostrou uma estrat gia significativa para os participantes deste estudo, proporcionando um espa o musical de express o e colabora o. Para otimizar o engajamento e reduzir poss veis resist ncias atividade, a interven o foi introduzida somente a partir do sexto encontro, momento em que v nculos de confian a j estavam mais fortalecidos e o grupo apresentava maior coes o. Essa abordagem foi adotada para que os participantes se sentissem mais seguros a contribuir criativamente, fortalecendo a experi ncia individual de participa o.

Na condu o do processo de composi o musical, apoia-se a participa o ativa, permitindo que cada indiv duo contribua com suas capacidades e saberes. A participa o adquire relev ncia especialmente quando os participantes compartilham hist rias, valores e perspectivas oriundas de um mesmo grupo sociocultural, fortalecendo os v nculos interpessoais e a sensa o de pertencimento (Schwantes et al., 2011). Cabe ao musicoterapeuta mediar a atividade, assegurando que todos se sintam representados, escutados e valorizados.

O processo foi desenvolvido em conson ncia com os princ pios do Envelhecimento Ativo, conforme definidos pela Organiza o Mundial da Sa de (OMS, 2005). Ressalta-se a import ncia de uma atua o inclusiva. A constru o de sistemas de sa de anti-idadistas requer a revis o cont nua de atitudes discriminat rias, a implementa o de abordagens centradas na pessoa idosa, a considera o de fatores socioculturais, o engajamento ativo das pessoas idosas na resolu o de problemas e o aprimoramento dos canais de comunica o (Inouye, 2021). A incorpora o desses princ pios no campo da Musicoterapia pode contribuir para a cria o de ambientes mais emancipat rios.

Este estudo apresenta algumas limita es que merecem ser consideradas na interpreta o dos achados. Em primeiro lugar, o n mero reduzido de participantes limita a possibilidade de generaliza o dos resultados. Al m disso, os participantes pertenciam a um grupo espec fico de participantes de um programa de extens o universit ria, o que implica que suas trajet rias e perspectivas s o atravessadas por condi es socioculturais, educacionais e econ micas particulares.

A homogeneidade socioecon mica e educacional dos participantes se configura como uma limita o, pois tal perfil pode ter favorecido o engajamento, a fluidez comunicativa e a familiaridade com propostas criativas, mas, ao mesmo tempo, restringe a transferibilidade dos resultados. A experi ncia de composi o musical, ao ser atravessada por refer ncias culturais, capitais simb licos e repert rios est ticos espec ficos, pode manifestar-se de forma distinta em grupos com outras trajet rias sociais, condi es econ micas e n veis de acesso educa o. Nesse sentido, a viv ncia aqui descrita reflete um recorte particular do envelhecimento.

Outro aspecto relevante diz respeito abordagem metodol gica adotada. A an lise fenomenol gica envolve interpreta es que podem ser influenciadas pela trajet ria e pelas compreens es pr vias dos pesquisadores, exigindo vigil ncia epistemol gica e tica constante para minimizar poss veis vieses. Paralelamente, o car ter qualitativo da pesquisa impossibilita a quantifica o dos efeitos da atividade de composi o musical sobre as percep es relacionadas ao envelhecimento, limitando a avalia o do impacto da interven o a uma abordagem interpretativa, sem pretens o de mensura o objetiva.

O duplo papel de musicoterapeuta-pesquisador pode ter influenciado diretamente a an lise e a discuss o dos dados. A condu o do processo pelo pr prio pesquisador constitui um elemento importante, uma vez que, em abordagens fenomenol gicas, a presen a do pesquisador n o vista como interfer ncia, mas como parte constitutiva da experi ncia. A implica o do pesquisador possibilitou o aprofundamento da compreens o do fen meno, ainda que exija vigil ncia sobre os poss veis vieses interpretativos. A dupla fun o demandou um exerc cio de reflexividade, reconhecendo que suas escolhas moldaram o campo experiencial. Essa postura busca autenticidade e coer ncia entre a viv ncia do pesquisador e a emerg ncia dos sentidos compartilhados pelo grupo.

CONSIDERA ES FINAIS

Este estudo explorou um processo de composi o musical em musicoterapia como estrat gia na promo o da sa de associada constru o de sentidos sobre o envelhecimento. A partir de uma pr tica est tica e dial gica, o grupo de participantes elaborou narrativas simb licas sobre suas viv ncias, ressignificou experi ncias e abordou estigmas sociais. A can o Samba do Envelhecer , fruto desse processo, sintetizou as discuss es e afetos mobilizados durante os encontros e representou um gesto coletivo de afirma o da cidadania, da autonomia e da participa o social.

A an lise da experi ncia sugere que o espa o terap utico possibilitou o compartilhamento de trajet rias de vida e de valores geracionais. O car ter p blico da performance final buscou ampliar o alcance simb lico da interven o, promovendo visibilidade social s vozes dos participantes.

Este trabalho contribui para o campo da Gerontologia ao destacar pr ticas que favorecem o protagonismo das pessoas idosas e a cria o de ambientes inclusivos. No mbito da Musicoterapia, o estudo oferece subs dios metodol gicos para o desenvolvimento de interven es centradas na colabora o/compartilhamento, na escuta e na sensibilidade cultural.

Estudos futuros poder o explorar a aplica o de m todos composicionais em diferentes contextos socioculturais e com grupos mais diversos, incluindo pessoas com diferentes n veis de funcionalidade, experi ncias musicais e pertencimentos geracionais. Investiga es com delineamentos longitudinais ou mistos tamb m poderiam avaliar os efeitos da composi o sobre indicadores espec ficos de sa de, qualidade de vida e engajamento social ao longo do tempo. Refor a-se a import ncia de pr ticas inter e transdisciplinares sens veis diversidade e subjetividade no envelhecer.

O estudo atingiu seus objetivos ao refor ar que a musicoterapia, por meio do recurso da composi o musical, configurou-se como uma estrat gia potente no campo da promo o da sa de. O processo coletivo favoreceu a articula o de experi ncias, valores e percep es acerca do envelhecimento, culminando na cria o de uma can o representativa das viv ncias do grupo. Os achados refor am o potencial da musicoterapia como instrumento de empoderamento, protagonismo e inclus o social, conforme sintetizado nos versos elaborados pelos participantes: O bom mesmo sentir alegria, ningu m quer sentir a solid o. Fazer parte da sociedade, vivendo na integra o. Com mais ou com menos idade, todos fazem parte da popula o .

AGRADECIMENTOS

O presente trabalho foi realizado com apoio da Coordena o de Aperfei oamento de Pessoal de N vel Superior ̶ Brasil (CAPES). C digo de Financiamento 001.

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Recebido: 13/09/2025

Aprovado: 24/11/2025

 

 



[1] Musicoterapeuta pelas Faculdades Metropolitanas Unidas, Doutorando em Gerontologia pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Campinas, SP, Brasil. E-mail: mauroanastacio@gmail.com

[2] Musicoterapeuta e pesquisadora vinculada ao Curso de Gradua o em Musicoterapia da Escola de M sica e Artes C nicas da Universidade Federal de Goi s (UFG), Goi nia, GO, Brasil. E-mail: mtclaudiazanini@gmail.com

[3] Professora Doutora da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Campinas, SP, Brasil. E-mail: osimson@uol.com.br