MUSICOTERAPIA COMO SUPORTE PARA A EXPRESS O E O RESTABELECIMENTO DE PESSOAS ENLUTADAS

 

MUSIC THERAPY AS SUPPORT FOR THE EXPRESSION AND RECOVERY OF BEREAVED INDIVIDUALS

 

Ari dne Gomes Vilero[1]

Frederico Gon alves Pedrosa[2]

 

RESUMO

 

Este estudo tem como objetivo investigar os efeitos e a relev ncia da musicoterapia para pessoas enlutadas. O luto uma rea o perda de um ente querido que pode se tornar patol gica e, assim, requerer acompanhamento. A musicoterapia apresenta-se como uma possibilidade para esse cuidado, pois, com suas t cnicas e experi ncias musicais, tem potencial para estimular altera es psicol gicas e sociais positivas, em mbito individual e grupal, sendo um meio de express o que facilita a exterioriza o de sentimentos. Este um estudo de caso explorat rio com adultos enlutados, atendidos em oito sess es semanais de musicoterapia online em grupo. Os dados foram coletados por question rio sociodemogr fico, relat rios e pelo Texas Revised Inventory of Grief (TRIG/Parte II), aplicado antes e depois das interven es. Os resultados indicam benef cios na express o emocional e na adapta o perda, bem como na redu o da intensidade do pesar, sugerindo preven o do luto prolongado ou patol gico.

 

Palavras-chave: Luto. Musicoterapia. M sica. Sa de Mental. Promo o da Sa de.

 

 

ABSTRACT

 

This study aims to investigate the effects and relevance of music therapy for bereaved individuals. Grief is a natural response to the loss of a loved one, which can, in certain cases, become pathological and require professional support. Music therapy emerges as a potential approach to such care, as its techniques and musical experiences have the potential to promote positive psychological and social changes at both individual and group levels. It serves as a non-verbal form of expression that facilitates the externalization of emotions. This is an exploratory case study conducted with bereaved adults who participated in eight weekly online group music therapy sessions. Data were collected through a sociodemographic questionnaire, session reports, and the Texas Revised Inventory of Grief (TRIG/Part II), administered before and after the interventions. The results indicate benefits in emotional expression and adaptation to loss, as well as a reduction in the intensity of grief, suggesting the prevention of prolonged or pathological mourning.

 

Keywords: Grief. Music Therapy. Music. Mental Health. Health Promotion.

 

INTRODU O

O processo de luto pode ser definido como uma rea o morte de um ente querido que possui intensidade relacionada com o v nculo entre o enlutado e o falecido; a etapa da vida de ambos; a forma como a morte ocorreu; e as experi ncias de perda pelas quais o enlutado viveu anteriormente (Valgas, 2013).

A teoria do Modelo do Processo Dual (Stroebe & Schut, 2010) se debru a sobre um entendimento mais amplo do enfrentamento ao luto, considerando as complexas formas pelas quais as pessoas lidam com a perda de algu m significativo, por meio de um processo regulat rio de oscila o. O processo de regula o marcado por momentos em que o enlutado est orientado para a perda, revisitando as circunst ncias da morte e relembrando a pessoa falecida, por exemplo. Em outros momentos h uma orienta o para a restaura o, na qual o enlutado desenvolve uma nova identidade, novos pap is e rela es a partir de uma nova perspectiva do mundo ap s a perda. Nessa inst ncia h maior foco para o reconhecimento da capacidade de adapta o (Caye & Garavelo, 2024).

H elementos relacionados perda que podem auxiliar a prevenir um luto prolongado, configurando-se como fatores de prote o, tais como: o apego seguro, relacionamento sem conflitos, apoio saud vel e suficiente na vis o do enlutado, realiza o de rituais f nebres, luto antecipat rio e o reconhecimento do luto pelo enlutado e pela sociedade (Braz, 2013). Por outro lado, os fatores de risco que podem contribuir para o desenvolvimento de um luto persistente envolvem eventos como morte de crian as e jovens, morte repentina e violenta, suic dio, n o localiza o do corpo, presen a de transtornos psiqui tricos, hist rico de perdas m ltiplas e sucessivas por parte do enlutado (Braz, 2013).

Considerando esses fatores, o luto pode ser classificado como n o prolongado e prolongado (ou patol gico), a partir da intensidade e dura o das implica es psicol gicas, f sicas, cognitivas e comportamentais. Alguns sintomas que caracterizam o p s-perda s o tristeza, culpa, solid o, depress o, ansiedade, aperto no peito, descren a, preocupa o, dist rbios do sono, isolamento social, baixa autoestima e alucina es (Worden, 2013).

Dessa forma, evidencia-se uma necessidade de acompanhamento e acolhimento s pessoas enlutadas, principalmente quelas com fatores de risco, que s o potenciais causadores de adoecimento ps quico, visto que o luto prolongado considerado um transtorno mental, inserido na quinta edi o do Manual Diagn stico e Estat stico de Transtornos Mentais DSM-5 (American Psychiatric Association, 2014) e no CID-11 (Organiza o Mundial de Sa de [OMS], 2019). Desse modo, as terapias s o alternativas para suprir essa necessidade, servindo como um fator de prote o para o luto patol gico (Martins, 2022).

A musicoterapia uma modalidade terap utica que utiliza as experi ncias musicais de audi o, recria o, composi o e improvisa o, bem como as rela es que surgem a partir delas, como fonte geradora de mudan as (Bruscia, 2000). A m sica um dos alicerces que sustentam a pr tica musicoterap utica e est presente em diferentes contextos, como, por exemplo, nos rituais f nebres e nos momentos seguintes. Isso pode ser observado no grande repert rio de can es que t m a morte ou o luto como tem tica (Valgas, 2013).

A musicopsicoterapia uma modalidade de musicoterapia que se caracteriza pelo uso de experi ncias musicais para o alcance de objetivos terap uticos psicol gicos, no qual a m sica adicionada ou substitui a express o verbal do paciente e se torna o principal meio de comunica o e relacionamento do processo (Gon alves & Pedrosa, 2023).

Bruscia (1998) prop e uma classifica o dos n veis de musicopsicoterapia considerando a rela o entre o uso da m sica e do discurso verbal no processo terap utico. Essa abordagem est organizada em um espectro de quatro n veis, em que no primeiro, denominado M sica como psicoterapia , a m sica o principal meio de acesso, elabora o e resolu o das quest es terap uticas, com pouco ou nenhum uso do discurso verbal. No segundo n vel, Psicoterapia centrada na m sica , a m sica permanece central, mas o discurso verbal utilizado para enriquecer, interpretar ou guiar a experi ncia musical em rela o ao cliente e ao processo terap utico. No terceiro n vel, M sica em psicoterapia , h uma altern ncia ou simultaneidade entre experi ncias musicais e verbais, com a m sica sendo usada por suas qualidades n o verbais, enquanto o discurso verbal auxilia na consolida o de insights. Por fim, no n vel Psicoterapia verbal com m sica , o discurso verbal predomina e a m sica serve como um elemento complementar, facilitando ou enriquecendo o di logo, mas sem ser diretamente vinculada quest o terap utica ou ao tratamento. Essa classifica o reflete a flexibilidade do uso da m sica como ferramenta terap utica em diferentes abordagens psicoterap uticas. Considerando que o luto traz consequ ncias psicol gicas, a musicopsicoterapia se mostra como um poss vel modelo a ser utilizado no tratamento de pessoas enlutadas.

Em um breve levantamento preliminar, foi encontrado apenas um estudo sobre o tema denominado A musicoterapia em situa es de luto: possibilidades de interven o (Valgas, 2013), que realizou interven es musicoterap uticas com um grupo de adultos enlutados e encontrou resultados promissores no cuidado a pessoas enlutadas. Ao buscar na literatura internacional, h ind cios de bons resultados da pr tica musicoterap utica com pessoas enlutadas, como em um estudo controlado randomizado realizado em um hospital psiqui trico de Nova Iorque (Iliya, 2015). Neste estudo, a pesquisadora constatou que cinco adultos com doen a mental em luto complicado que receberam de oito a dez sess es individuais de musicoterapia, al m do tratamento padr o, obtiveram maiores benef cios com rela o aos sintomas de luto do que aqueles que receberam apenas o tratamento padr o.

Ainda, a partir da pandemia do covid-19, em que o isolamento social foi uma importante medida para a diminui o da transmiss o do v rus, desenvolveram-se estrat gias para que houvesse a continuidade dos servi os terap uticos a dist ncia. Com o aval da OMS, por meio da Lei n 13.989, promulgada em abril de 2020, foi implantado o modelo de teleatendimento, com os atendimentos ocorrendo de forma virtual, por meio de plataformas digitais. Em 2022, a Lei n 14.510 autoriza e disciplina a pr tica da telessa de em todo o territ rio nacional, al m de revogar a Lei n 13.989.

Nesse sentido, um estudo brasileiro que abordava atendimentos musicoterap uticos online a um grupo de universit rios no contexto pand mico levantou evid ncias sobre a efetividade dessa modalidade a partir do alcance dos objetivos terap uticos relacionados a melhorias na autoestima, no humor, na expressividade, no autoconhecimento e na escuta aos outros (Neves et al., 2023). 

Dessa forma, o objetivo geral desta pesquisa investigar os efeitos e a relev ncia da musicoterapia para pessoas enlutadas. Tamb m se objetiva verificar os efeitos da musicoterapia no apoio adapta o nova realidade de indiv duos em luto, bem como a possibilidade de a musicoterapia servir como fator de prote o para o luto prolongado.

METODOLOGIA

Delineamento

Esta pesquisa consiste num estudo de caso de natureza explorat ria, que permite a observa o do efeito de uma interven o cl nica e uma vis o abrangente acerca do tema, a partir de uma observa o real do objeto estudado (Gil, 2017). O processo de luto, por sua vez, um fen meno complexo, de desenvolvimento subjetivo e individual, mas influenciado por m ltiplos fatores. Em raz o dessa complexidade, adotou-se uma metodologia mista, combinando abordagens qualitativas e quantitativas.

Popula o

Os crit rios de inclus o adotados foram: pessoas de nacionalidade brasileira, com identifica o de qualquer g nero, que estivessem passando por um processo de luto pela morte de um ente querido. Entendemos por ente querido: membros da fam lia, c njuge, amigos, animais de estima o, pacientes, dentre outros. Os crit rios de exclus o foram: indiv duos menores de 18 anos e pessoas que n o possuem dispositivos com acesso internet.

 

Procedimentos

 

Recrutamos a amostra atrav s de um link do Google Formul rios divulgado nas redes sociais (p.ex. Instagram, WhatsApp), com o aux lio do projeto de extens o Navega Musicoterapia: a Musicoterapia da UFMG no espa o virtual (SIEX - 402833). Assim, as inscri es ocorreram entre os dias 24 de agosto e 23 de setembro de 2024.

A partir do referido link, as pessoas puderam se inscrever, escolher o melhor dia, hor rio e modalidade (presencial ou online) dentre aqueles que disponibilizamos, e responder a um question rio, que tinha por finalidade recolher: 1) dados sociodemogr ficos; 2) quest es relacionadas ao processo de morte do falecido; 3) o v nculo para com o enlutado; 4) a presen a nos rituais f nebres; 5) o suporte ao enlutado p s-morte; e 6) as m sicas que lembrassem o ente querido, como uma forma de sensibiliz -los ao entendimento da m sica inserida nesse contexto.

Se os participantes escolhessem a modalidade presencial, os atendimentos ocorreriam na Escola de M sica da UFMG; caso preferissem a modalidade online, as sess es seriam desenvolvidas por meio da plataforma Google Meet, visto que uma plataforma intuitiva e de f cil acesso a todos. Dessa forma, ofertamos oito sess es de musicoterapia, com periodicidade semanal e dura o de uma hora. Estruturamos os encontros em cinco etapas: abertura, escuta/recria o, an lise l rica, composi o e finaliza o, e as atividades foram constru das, no decorrer dos atendimentos, levando em considera o os objetivos e as demandas de cada sess o. Uma sess o t pica come ava com uma m sica de boas-vindas, seguida de audi o ou recria o de m sicas relacionadas ao processo de luto, selecionadas pela musicoterapeuta ou escolhidas pelos pr prios participantes. A partir disso, as can es evocavam mem rias e suscitavam reflex es e discuss es que serviam de base para a etapa de composi o. Ap s esse momento, havia a finaliza o da sess o, com avisos e a execu o da m sica de despedida. As sess es ser o mais bem descritas no item descri o das sess es.

Desenvolvemos os atendimentos na perspectiva musicopsicoterap utica, com maior aproxima o da psicoterapia centrada na m sica, em que o discurso verbal utilizado para guiar e interpretar as experi ncias musicais, sendo o meio pelo qual a quest o terap utica acessada e elaborada (Gon alves & Pedrosa, 2023).

Aspectos ticos[3]

O Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE) foi disponibilizado para assinatura logo na primeira sess o, por meio do Google Formul rios, com o objetivo de conscientizar os participantes sobre os procedimentos, benef cios e riscos da pesquisa, evidenciando o sigilo da identidade e a possibilidade de retirar o consentimento ap s o aceite, sem que houvesse penaliza o.

Os riscos relacionados participa o na pesquisa envolveram a manifesta o de emo es e sentimentos desconfort veis, tais como tristeza, ang stia, ansiedade, al m de cansa o ao responder o question rio e o instrumento de avalia o (descritos adiante). Por m, asseguramos que os participantes pudessem sair a qualquer momento e, caso fosse necess rio, seriam atendidos em sess es de musicoterapia pelo segundo autor, em momento oportuno.

Coleta e an lise dos dados qualitativos

A coleta de dados qualitativos referentes interven o se deu por meio de relat rios de todas as sess es. Foi utilizado o m todo de an lise tem tica (Braun & Clarke, 2006), apoiado pelo software requalify.ai, pelo qual os temas gerados serviram de base para a discuss o dos resultados quantitativos. O requalify.ai um software que utiliza Large Language Models (LLMs) com arquitetura Generative Pre-trained Transformer (GPT) para apoiar a an lise de dados qualitativos (Martins et al., 2024). Este software faz uma combina o de t cnicas avan adas de processamento de linguagem natural (NLP) por meio de t cnicas cl ssicas e apoiadas por IA. Utilizamos as fun es tags, que categoriza analiticamente o conjunto de textos de forma mais generalista, e subtags, que levanta categorias mais especializadas no contexto de documentos espec ficos. Por meio desse procedimento, o software lematiza os assuntos principais do corpus. Posteriormente, usamos a fun o dendograma, que realiza uma classifica o hier rquica descendente dos assuntos principais, e, por fim, uma an lise de redes que verifica a frequ ncia do tema pelo tamanho do nodo e centralidade, por sua cor. Este mesmo procedimento foi utilizado em Gomes Vilero et al. (2025).

Coleta e an lise dos dados quantitativos

Quanto aos dados quantitativos, na primeira e ltima sess o, aplicamos o instrumento psicom trico Texas Revised Inventory of Grief (TRIG), instrumento de avalia o do luto desenvolvido por Faschingbauer et al. (1977), com evid ncias de validade no contexto brasileiro levantadas por Barros (2008). O instrumento tem a finalidade de avaliar a intensidade do luto pela perda de um ente querido ao longo do tempo, reconhecendo o sofrimento e a necessidade de suporte terap utico. Dessa forma, o TRIG constitu do de duas subescalas, que analisam o comportamento passado (Parte I - 8 itens) e os sentimentos no momento presente (Parte II - 13 itens). Em ambas as partes, a mensura o ocorre por meio de uma escala tipo Likert, com varia o de 1 (completamente falso) a 5 (completamente verdadeiro). Neste estudo utilizamos apenas os escores da Parte II do instrumento, obtido pela soma das 13 quest es, com uma varia o de 13 a 65 pontos, configurando-se como uma medida do luto tardio (Barros, 2008, p. 56).

Para a an lise dos escores obtidos atrav s da TRIG, utilizamos o software RStudio v. 4.5.0 (R Core Team, 2025), com o suporte dos pacotes psych v. 2.4.6.26 (Revelle, 2024) e rciplot v. 0.1.1 (Hagspiel, 2023). No n vel intersubjetivo, a normalidade foi avaliada pelo teste de Shapiro-Wilk e, posteriormente, aplicou-se o teste t de Student, para dados com distribui o normal, ou o teste de Wilcoxon, para dados sem distribui o normal. Adotou-se um n vel de signific ncia de 5%. Al m disso, utilizamos o aplicativo C lculo do ndice de Mudan a Confi vel (Reliable Change Index IMC) (Pedrosa, 2025) para avaliar mudan as em n vel intrassubjetivo. O IMC, proposto por Jacobson e Truax (1991), uma medida estat stica utilizada para determinar se a diferen a entre os escores pr e p s-interven o excedem o erro de medida de teste. Quando essa mudan a ultrapassa um limite positivo espec fico (1,96), considera-se que a interven o resultou em uma Mudan a Positiva Confi vel (MPC). Se ultrapassar um limite negativo espec fico (-1,96), identifica-se uma Mudan a Negativa Confi vel (MNC). Se as mudan as se mantiverem dentro dos limites estabelecidos, conclui-se que houve Aus ncia de Mudan a Confi vel (AMC).

RESULTADOS

Amostra

 

Ap s o per odo em que o formul rio ficou dispon vel para as inscri es, constatamos 16 preenchimentos. Desses inscritos, dois foram encaminhados para projetos semelhantes devido n o disponibilidade nos hor rios propostos pela pesquisadora, totalizando 14 participantes. No in cio dos atendimentos havia dez participantes, e na finaliza o, contaram-se nove participantes. Portanto, o estudo teve uma taxa de 56% de ades o, considerando todo o tratamento. Assim, as an lises ter o enfoque na participa o daqueles que permaneceram at o fim da pesquisa.

Com rela o ao dia e hor rio para a realiza o das sess es, foram necess rios ajustes para que a maioria dos inscritos pudessem participar. Dessa forma, propomos a divis o dos participantes em dois grupos, com atendimentos em dias e hor rios distintos. Um grupo continha oito pessoas, enquanto o outro era formado por uma dupla. Devido sa da de alguns participantes e s mudan as nos hor rios de outros, a organiza o dos pacientes ocorreu da seguinte forma: oito pessoas foram atendidas em um hor rio, havendo atendimento individual em outro momento.

Na Tabela 1 est o descritos alguns dados que caracterizam a amostra, na qual consideramos e analisamos apenas o atendimento em grupo.

 

Tabela 1 - Descri o da amostra

Sexo

 

Feminino

7(87,5%)

Masculino

1 (12,5%)

Estado Civil

 

Vi vo(a)

4 (50%)

Casado(a)

1 (12,5%)

Solteiro(a)

3(37,5%)

Idade

44,5 (DP = 10,27; min. 29, m x. 55)

Perda principal

 

C njuge

4 (50%)

Irm o( )

3 (37,5%)

Amigo

1 (12,5%)

Segunda perda significativa

8 (100%)

Participa o em ritual f nebre

7 (87,5%)

Per odo p s-perda

Variou entre uma semana e dois anos

Morte

S bita, doen a cr nica.

Possui suporte

6 (75%)

Suporte suficiente

3 (50%)

 

Fonte: Elaborado pelos autores.

Quanto ao relacionamento do ente querido para com o enlutado, a maioria dos pacientes relatou ser bom, como quando escreveram Maravilhoso um encontro de Almas, por mais dif ceis momentos est vamos um ao lado do outro dando apoio, r amos juntos, brinc vamos (sic) e bom de grande amorosidade e admira o .

Em rela o m sica no processo de luto, alguns pacientes relataram ter uma m sica espec fica que remete ao ente querido, como, por exemplo, Maria passa na frente (Rossi, 2019), Impressionando os anjos (Mioto, 2017), Voc (Maia, 1971) e For a Estranha (Veloso, 1978), enquanto outras pessoas relataram n o ter uma em espec fico, mas sim v rias: Muitas. M sicas de rezo na linha xam nica. Mantras. Teria que reunir .

Sobre os motivos pelos quais a m sica desperta lembran as dos falecidos, 50% relataram que ouviam a m sica juntos; 25% comentaram que o(a) falecido(a) gostava da m sica; 12,5% disseram se lembrar do ente querido cantando a m sica, e isso fez com que sentissem uma boa sensa o; 12,5% relataram que compartilhavam m sica a todo tempo com o ente querido.

Quando questionados sobre a audi o da m sica ap s o falecimento, 75% das pessoas ouviram a m sica, enquanto 25%, n o. Entre aqueles que n o ouviram, 100% afirmaram n o se sentirem preparados para faz -lo. Daqueles que ouviram, 50% relataram que choraram ouvindo a m sica; 37,5% disseram que se sentiram vontade ao ouvir.

Sobre a exist ncia de alguma m sica que representasse a forma como estavam se sentindo, alguns identificaram uma m sica, como Hurt (Cash, 2002), You are not alone (Jackson, 1995) e Ave Cantadeira (Pedra Azul, 1982). Outras pessoas comentaram que n o possuem uma m sica que represente seus sentimentos. Sobre a utiliza o das m sicas ao longo dos encontros, 87,5% confirmaram a possibilidade de utiliza o, enquanto 12,5% negaram.

A respeito da prefer ncia da modalidade em que ocorreriam as sess es, 100% dos participantes escolheram a modalidade online.

A seguir, descreveremos os atendimentos e as an lises dos dados qualitativos e quantitativos relacionados ao desenvolvimento das sess es do grupo.

Descri o das sess es

As sess es ocorreram durante os meses de outubro e novembro de 2024, na modalidade online, com dura o m dia de uma hora e meia, por meio da plataforma Google Meet. Os principais materiais usados foram: viol o, voz, v deos no YouTube e os softwares word e Mentimeter.

Os encontros seguiram as etapas citadas na Metodologia, havendo um momento de acolhida atrav s da m sica de boas-vindas, seguido de audi o e/ou recria o musical, que proporcionaram discuss es verbais acerca das escolhas das can es, bem como o que elas expressavam atrav s da letra, buscando uma associa o com os processos de luto vivenciados pelos participantes. A partir disso, a primeira autora (quem conduziu as sess es) prop s que essas discuss es fossem compiladas em composi es. Assim, foram compostas tr s can es. Al m disso, houve o momento de despedida e finaliza o da sess o.

Os atendimentos tiveram, em m dia, seis participantes por sess o, os quais se engajaram em todas as propostas dadas pela pesquisadora. Apesar de n o haver regras relacionadas ao uso da c mera, a maioria permaneceu com a c mera aberta durante todo o atendimento, enquanto alguns n o abriram em nenhum momento. Assim, os limites e as vontades dos participantes foram respeitados.

Durante as atividades de audi o musical, utilizamos a ferramenta de streaming YouTube para a reprodu o das m sicas, al m de interpreta es da pr pria pesquisadora. Em rela o recria o musical, os pacientes foram encorajados a cantar trechos de m sicas relevantes em seus processos de luto, n o havendo a utiliza o de instrumentos musicais nesses momentos. Tanto nos instantes de audi o quanto nos de recria o musical, alguns participantes demonstraram estar emocionados, atrav s do choro e da voz tr mula. No que diz respeito composi o, tr s can es foram criadas[4], e o processo permeou cinco das oito sess es. Nesses processos, cada participante foi convidado a contribuir com uma frase, trecho de m sica, de livros e outros, a fim de constituir a letra da can o. Ap s isso, eles ordenaram as frases de modo a fazer sentido para o contexto cancioneiro. A pesquisadora criou harmonia, melodia e ritmo a partir da letra e enviou para o grupo antes do atendimento posterior. Dessa forma, os pacientes tiveram total liberdade para sugerir modifica es, bem como nomear as can es.

As t cnicas de composi o foram bastante relevantes no processo musicoterap utico, mas em virtude das limita es de espa o, as can es ser o foco de an lise em pesquisas futuras.

A plataforma utilizada para as sess es trouxe alguns desafios relacionados aos delays de transmiss o, dessa forma, tivemos dificuldades em vivenciar as experi ncias musicais em que todos pudessem participar de forma interativa e simultaneamente. Apesar disso, houve relatos positivos acerca das interven es e do processo musicoterap utico como um todo, como quando uma participante comentou que era dif cil [...] no in cio dos encontros falar sobre o luto sem chorar, ver fotos, e aos poucos isso foi diminuindo; e participar desse grupo de musicoterapia me ajudou muito .

An lise tem tica dos relat rios

Realizamos a An lise Tem tica apoiados no software requalify.ai. Na primeira fase elaboramos os relat rios; na segunda, preparamos os dados para inser o na plataforma, destacando apenas os relat rios dos atendimentos em grupo; e na terceira fase, utilizamos as fun es tags e subtag do software requalify.ai (Martins et al., 2024). Essas fun es descobriram os temas principais do documento anexado e fizeram uma lematiza o. Foram descobertas tr s tags principais e cinco subtags. As tags foram: Acolhimento e v nculo emocional , Express o e Ressignifica o do Luto , Impacto da Musicoterapia na sa de emocional ; e as subtags foram: Acolhimento e cria o de v nculo , Express o emocional atrav s da m sica , Ressignifica o do Luto , Import ncia da escuta ativa e T cnicas musicoterap uticas e seus efeitos .

No quarto e quinto passo, revisamos e definimos os temas gerados, respectivamente. Consideramos a semelhan a em nome e descri o entre algumas tags e subtags e selecionamos apenas quatro. Posteriormente modificamos o nome da segunda tag e incorporamos as informa es daquelas que n o foram escolhidas nas descri es das selecionadas. Em conclus o, apresentaremos a seguir as tags e subtags selecionadas, suas respectivas descri es e an lises.

 

1)    Acolhimento e cria o de v nculo: a relev ncia do acolhimento inicial e da cria o de v nculos entre os participantes foi destacada como fundamental para o sucesso das sess es de musicoterapia. Os relatos mostraram que a intera o e o reconhecimento das hist rias de vida e do luto de cada um favorecem um ambiente seguro e de apoio m tuo.

2)    Express o e ressignifica o do luto atrav s da m sica: t cnicas musicais foram utilizadas como um meio eficaz para a express o emocional, permitindo que os participantes compartilhassem sentimentos complexos relacionados perda. Os participantes relataram processos de ressignifica o do luto, em que a participa o ativa nas atividades, como discuss o sobre can es e composi o de can es em homenagem aos entes queridos, ao processo de luto e s conquistas contidas nele, ajudou na transforma o da dor em mem ria e amor. A troca de experi ncias e a identifica o nas hist rias dos outros s o cruciais para essa ressignifica o;

3)    T cnicas musicoterap uticas e seus efeitos: as t cnicas utilizadas, como a dedicat ria musical e a composi o coletiva, demonstram efic cia na promo o da autoexpress o e na facilita o de discuss es sobre o luto, contribuindo para o bem-estar emocional dos participantes. Al m disso, a t cnica de escuta ativa foi fundamental nas sess es, permitindo que os participantes se sentissem ouvidos e valorizados. Essa pr tica contribui para a constru o de um espa o terap utico em que as emo es pudessem ser expressadas livremente;

4)    Impacto da musicoterapia na sa de emocional dos participantes: os relatos indicaram que a musicoterapia tem um impacto positivo na sa de emocional dos participantes, ajudando-os a lidar com a dor da perda e a encontrar um caminho para seguir em frente. A m sica vista como um s mbolo de esperan a e continuidade no processo de luto. As t cnicas utilizadas, como a dedicat ria musical e a composi o coletiva, demonstram efic cia na promo o da autoexpress o e na facilita o de discuss es sobre o luto, contribuindo para o bem-estar emocional dos participantes.

 

A partir da sele o dos referidos temas, verificamos como estas tags e subtags se organizam em um dendrograma (Figura 1).

Figura 1 - Dendograma das tags e subtags referentes aos relat rios

Fonte: Elaborado pelos autores a partir do dendograma gerado pelo requalify.ai (Martins et al., 2024).

 

O dendrograma (Figura 1) representa a hierarquia dos temas principais encontrados nos relat rios das sess es de musicoterapia, organizando-os de modo que conseguimos visualizar as rela es entre os diferentes t picos abordados.

Dessa forma, o tema Acolhimento e cria o de v nculo est em destaque, evidenciando a import ncia da cria o de um espa o seguro para o desenvolvimento do processo musicoterap utico, aumentando a ades o e fazendo com que os pacientes se sentissem confort veis para compartilhar quest es relacionadas aos processos de luto individuais. Al m disso, algumas pessoas relataram que a m sica facilitou a aproxima o e cria o de v nculo no grupo. Isso pode ser verificado, como exemplo, na seguinte fala: este o terceiro grupo que eu participo, e a m sica trouxe uma maior conex o entre as pessoas deste grupo .

A Express o e ressignifica o do luto atrav s da m sica tamb m se apresenta como um tema relevante, que refor a o papel da m sica como meio de express o e de ressignifica o da perda. A audi o e a recria o de can es suscitaram reflex es e discuss es importantes, a partir das quais os pacientes compartilharam seus sentimentos, viv ncias e estrat gias para lidar com a perda. Essas reflex es serviram de subs dio para as tr s composi es feitas ao longo das sess es. Dessa forma, os pacientes conseguiram visualizar o processo e o progresso a partir das composi es. Podem-se verificar essas quest es a partir de relatos como a m sica [primeira composi o] foi como a tradu o do sentimento coletivo e d pra perceber nas composi es que fluiu, chorei ouvindo a ltima composi o, mas foi um choro de alegria, porque percebi o quanto o grupo avan ou ao longo dos encontros .

O tema T cnicas musicoterap uticas se mostra relevante na medida em que descreve as t cnicas utilizadas pela pesquisadora para alcan ar os objetivos terap uticos tra ados, baseadas no modelo de musicopsicoterapia, tais como t cnicas de processamento verbal das experi ncias do cliente em musicoterapia (Grocke & Wigram, 2007), Dedicat ria Musical (Milleco, 2001), Musicoterapia de apoio para grupo e/ou individual (Houghton et al., 2005); assim como as quatro experi ncias musicais propostas por Bruscia (2000). A utiliza o da modalidade de musicopsicoterapia se demonstrou relevante, visto que considerou a necessidade de verbaliza o do grupo e utilizou o discurso de modo a enriquecer as experi ncias musicais.

A tag descrita anteriormente se desdobra na subtag Impacto da musicoterapia na sa de emocional , que corresponde aos resultados e benef cios obtidos por meio das interven es musicoterap uticas a partir da percep o subjetiva e coletiva dos participantes em rela o s sess es e ao processo musicoterap utico como um todo. Isso pode ser verificado por meio de falas como: ouvindo a ltima composi o me lembrou do quanto no in cio dos atendimentos era t o sofrido e hoje parece estar mais leve o sentimento do luto; ouvindo a letra e pensando em tudo que tivemos nos encontros, vou enxergar o luto de uma forma diferente e participar do grupo fez com que eu percebesse que n o estou sozinha e isso me fortalece .

Verificamos tamb m, por meio de uma an lise de redes, quais temas s o mais frequentes e centrais nos relat rios. A frequ ncia identificada pelo tamanho do nodo, enquanto a centralidade varia de acordo com a cor (Figura 2).

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Figura 2 - An lise de redes das tags e subtags

Nota: 1 - T cnicas musicoterap uticas e seus efeitos; 2 - Impacto da musicoterapia na sa de mental; 3 - Express o e ressignifica o do luto atrav s da m sica; e 4 - Acolhimento e cria o de v nculo. Fonte: Elaborado pelos autores e gerado pelo requalify.ai (Martins et al., 2024).

 

Observa-se, na Figura 2, que o acolhimento e a cria o de v nculo foram o tema mais frequente, enquanto o tema relativo aos benef cios da musicoterapia para essa popula o foi o mais central. A centralidade indica que o tema possui maior conex o com os demais. Dessa forma, pode-se dizer que um ambiente acolhedor, no qual se tenha utilizado da m sica para express o e ressignifica o da perda por meio de t cnicas musicoterap uticas, influenciou direta e positivamente na sa de mental dos participantes.

A partir dessa an lise, tamb m verificamos que os relat rios destacaram a import ncia da participa o ativa dos pacientes, bem como a flexibilidade nas interven es a partir do entendimento dos limites e da din mica do grupo. Os participantes demonstraram satisfa o com as sess es, real ando a relev ncia da musicoterapia em suas vidas; portanto, evidencia-se a influ ncia da musicoterapia como ferramenta terap utica para esta popula o.

An lises quantitativas

Os dados quantitativos foram coletados por meio do instrumento de avalia o psicom trica TRIG, na primeira e na ltima sess o do atendimento em grupo e individual. Com rela o ao preenchimento, dos oito participantes do grupo, sete responderam quando solicitados. Dessa forma, ap s a verifica o da normalidade por meio do teste de Shapiro-Wilk (p < 0,05), realizamos o teste t de Student. No entanto, dado o baixo poder amostral, realizamos tamb m o teste de Wilcoxon.

Observamos que, no n vel interpessoal (grupal), o grupo obteve um escore m dio de 51,86 (DP = 5,24, mediana = 53) no in cio do tratamento (T1) e, ao final (T2), m dia 41,29 (DP = 5,53, mediana = 42). Essa redu o, representada na Figura 3, foi estatisticamente significativa e com um tamanho de efeito grande, tanto no teste t pareado (t (6) = 3,50, p = 0,01, D = 1,32, IC95% = [0,26; 2,34]) quanto pelo teste de Wilcoxon (W = 28, p = 0,01, r = 0,89, IC95% = [0,89; 0,91]).

Figura 3 - Boxplot dos escores do grupo antes e depois

Nota: Boxplot com a m dia indicada por losango azul e outlier representado pelo c rculo vermelho.

Fonte: Elaborado pelos autores.

 

No n vel intraindividual verificamos que 85,71% dos participantes alcan aram uma Mudan a Negativa Confi vel (MNC), enquanto 14,29% apresentaram Aus ncia de Mudan a Confi vel (AMC). Isso informa que todas as pessoas do grupo experimentaram diminui o nos escores e apenas uma delas verificou diminui o menor do que a varia o do erro. Estas informa es est o plotadas na Figura 4.

 

Figura 4 - ndice de Mudan a Confi vel pelo m todo JT

Fonte: Elaborado pelos autores.

 

A diminui o dos escores ap s as interven es indicam mudan as significativamente confi veis e estatisticamente significativas. Estes dados s o evid ncias encorajadoras, ainda que iniciais, de que a musicoterapia relevante no suporte s pessoas enlutadas na medida em que auxilia na diminui o da intensidade do luto.

DISCUSS ES

Os resultados das an lises qualitativas das interven es coletivas evidenciaram que as t cnicas musicoterap uticas, com destaque para a composi o musical, foram importantes para que houvesse a express o de sentimentos e reflex o sobre o processo de luto. Considerando a an lise quantitativa dos dados psicom tricos, verificamos que essas interven es geraram impactos positivos na sa de mental dos participantes, contribuindo para uma mudan a de perspectiva acerca da perda. Nesse sentido, os dados desta pesquisa entram em resson ncia com os achados de Valgas (2013), que tamb m apontou resultados satisfat rios de experi ncias musicoterap uticas em grupo na express o e na constru o de novos sentidos relacionados s perdas e ao processo de luto.

Com rela o aos resultados quantitativos coletados atrav s do TRIG, foi demonstrado que, no n vel interpessoal, houve uma redu o estatisticamente significativa e com um tamanho de efeito grande entre o in cio e o fim dos atendimentos. Essas mudan as foram verificadas tamb m no n vel intraindividual, em que seis dos sete participantes que preencheram a avalia o obtiveram uma mudan a negativa confi vel. Assim, temos evid ncias iniciais de que a musicoterapia pode se caracterizar como um fator de prote o, visto que auxilia na diminui o da intensidade do luto e, consequentemente, ameniza as chances de desenvolvimento de um luto prolongado/patol gico.

Os dados descritos no par grafo anterior v o ao encontro do estudo feito por Iliya (2015), que analisou os efeitos da musicoterapia como uma terapia complementar a um tratamento padr o voltado para adultos com luto prolongado e doen a mental. Nele tamb m foram identificadas mudan as estatisticamente significativas e de grande tamanho de efeito, por meio das an lises das pontua es do invent rio do luto complicado (Prigerson et al., 1996) em aplica es pr e p s-interven es.

A utiliza o da musicopsicoterapia como modelo de base para as interven es foi significativa na medida em que considerou a necessidade de verbaliza o do grupo e utilizou o discurso de modo a enriquecer as experi ncias musicais. A partir dela foi poss vel realizar um trabalho direcionado para o compartilhamento de sentimentos, experi ncias e estrat gias de enfrentamento ao luto, que permitiu com que os participantes se identificassem e aprendessem uns com os outros.

Al m disso, foi poss vel visualizar a teoria do Modelo do Processo Dual (Stroebe & Schut, 2010) durante o processo musicoterap utico, a partir das discuss es e composi es musicais constru das em atendimento, em que o grupo oscilava entre a regula o e a restaura o. A partir dos testes e dos resultados gr ficos, verificou-se que a musicoterapia pode auxiliar nesse processo oscilat rio, orientando a popula o de forma gradual para o reconhecimento da capacidade de adapta o e consequente restaura o.

A respeito da modalidade online, foi preciso criar estrat gias para que os pacientes pudessem vivenciar as experi ncias musicais. Dessa forma, utilizamos de plataformas digitais de m sica, como o YouTube, al m de performances da pesquisadora, para que ocorresse a audi o musical. Para a recria o, foi preciso encorajar os pacientes a cantar can es, enquanto que, para a composi o, foi dada a possibilidade de escolha entre duas op es de sequ ncia de acordes, bem como o ritmo da m sica, ainda que os participantes dessem total liberdade para que a pesquisadora compusesse a m sica sua maneira. Os principais desafios relacionados a essa modalidade se relacionam s dificuldades em vivenciar experi ncias musicais em que todos possam participar interativamente, de forma simult nea, al m de restringir os atendimentos a um p blico que tenha acesso a dispositivos com acesso internet. Apesar das dificuldades intr nsecas modalidade online, foi poss vel alcan ar os objetivos propostos pela pesquisa.

CONSIDERA ES FINAIS

Este estudo investigou os efeitos e a relev ncia da musicoterapia para adultos enlutados a partir de atendimentos coletivos e individuais na modalidade online, em que, por meio de an lises qualitativas e quantitativas, foram levantados ind cios sobre a efic cia das interven es musicoterap uticas em n vel interpessoal e intraindividual.

A an lise qualitativa corroborou a relev ncia das t cnicas musicoterap uticas, com destaque para a composi o musical e a participa o ativa dos pacientes, evidenciando a influ ncia da musicoterapia como ferramenta terap utica para esta popula o. Dessa forma, a musicoterapia contribuiu para a express o, reflex o e mudan a de perspectiva em rela o perda e ao processo de luto, auxiliando no processo de restaura o e adapta o nova realidade. Os dados quantitativos tamb m nos informam que as interven es podem auxiliar na diminui o da intensidade do pesar e, consequentemente, amenizar as chances do desenvolvimento de um luto prolongado/patol gico.

Ainda que incipiente, mas considerando a escassez de estudos relacionados ao tema abordado, essa pesquisa contribui para a literatura ao fornecer uma an lise inicial acerca dos impactos da musicoterapia na sa de mental de pessoas enlutadas, incluindo dados qualitativos e quantitativos. Futuras pesquisas devem considerar um maior n mero de participantes, a fim de verificar se os achados da atual pesquisa s o generaliz veis.

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Recebido: 06/03/2025

Aprovado: 21/08/2025

 



[1] Bacharel em M sica com Habilita o em Musicoterapia pela Universidade Federal de Minas Gerais, Belo Horizonte, MG, Brasil. E-mail: ariadnegvilero@gmail.com

[2] Professor adjunto do curso de Musicoterapia da Universidade Federal de Minas Gerais, Belo Horizonte, MG, Brasil. E-mail: fredericopedrosa@ufmg.br

[3] Esta pesquisa foi avaliada e aprovada pelo Comit de tica e Pesquisa da Universidade Federal de Minas Gerais, com o CAAE 79673824.8.0000.5149.

 

[4] As tr s composi es podem ser acessadas no seguinte link: https://www.youtube.com/playlist?list=PLbtH67XdxGsB4JiBQzQ8NSaRhXq0FRYK1